A espiritualidade libertadora e os saberes tornados invisíveis

Por| Rosemary Fernandes da Costa

Vivemos a espiritualidade libertadora como caminho pessoal e, ao mesmo tempo, comunitário. A divina ruah, o Amor divino que nos orienta, sempre nos conduz às relações, e a irmos aprofundando o face a face, seja com nossos irmãos e irmãs, seja com os tantos seres vivos, seja com nossos vínculos com o passado, o presente e o futuro da Mãe Terra.

Afirmamos, portanto, que viver a espiritualidade libertadora traz consequências práticas, éticas, para nosso jeito de pensar e viver em cada ambiente. A espiritualidade libertadora nos questiona diante de uma cultura que desumaniza, aliena, escraviza e nos alerta quanto a apenas reproduzirmos esta cultura, sem questionarmos e também sem apresentarmos novas propostas.

Sim, isso mesmo. Questionar a cultura que desumaniza e é destrutiva das relações com as pessoas e com a Mãe Terra já é um primeiro passo, com certeza. Vejamos alguns exemplos que nos apoiam como troca de saberes e nos ajudam a impulsionar as buscas em cada comunidade.

  1. As muitas formas de comunicação e suas consequências nas relações

Falar de espiritualidade libertadora é nos darmos conta de que somos seres de relação, portanto, existem muitas formas de nos comunicarmos: a palavra, as imagens, os gestos, os silêncios, os símbolos.

Em nossos tempos podemos observar que muitas vezes em vez de boas orientações, temos a ausência delas. Este fato pode ser visto como um incidente mas, segundo muitos pesquisadores da área da Comunicação e de Ciências Sociais, é muito mais do que isso. Estamos diante de um processo social de individualização e de distanciamento entre as pessoas. Um dos fatores que colabora para estes dois processos é oferecer notícias em processo acelerado, mas também enganoso, construindo algumas ideias e discursos de acordo com o desejo de empresas e grupos socioeconômicos e políticos.

Segundo o pensador Milton Santos, algumas técnicas de informação são selecionadas para aprofundar processos de criação de desigualdades. É o que chamamos de ideologia da globalização. Ela produz uma espécie de encantamento do mundo, uma ilusão de que não há desigualdades, de que estamos em um sistema ético com relação à produção, desenvolvimento e distribuição de bens.

O que nos cabe? Sermos extremamente atentos às formas de comunicação, à relação entre os fatos e as notícias, às consequências em nossas relações comunitárias, familiares, sociais. Procurarmos outras fontes de informação, outras formas culturais de ver o mundo e a realidade que se apresenta, ouvir os mais velhos, dialogar na comunidade, meditar, rezar, contemplar a Palavra sagrada, dialogar com a Mãe Terra.

Essas são as orientações que nos chegam pela espiritualidade libertadora: sempre estarmos atentos à escuta profunda, à ampliação de nossos horizontes, ao discernimento crítico e comunitário.

  1. Os bens culturais e os bens de consumo

Uma das fábulas que o sistema de globalização nos conta é que devemos todos ser iguais: na forma de falar, nas músicas que ouvimos, na forma de dançar, de nos vestir, de comer, de rezar, de nos relacionarmos sexualmente, de nos organizar geograficamente e socialmente. Enfim, anula as diferenças culturais, geográficas, territoriais. Anula as particularidades, a riqueza da originalidade de cada pessoa, de cada povo, de cada comunidade, de cada expressão religiosa.

Se não estivermos atentos, essa é uma névoa que nos envolve e começamos a acreditar que é assim mesmo, e repetimos as ideias que nos são transmitidas sem nem percebermos que estamos invisibilizando culturas, pessoas, formas de ver e viver.

Não devemos nos sentir culpados por nada disso, pois a ideologia é muito competente em nos enredar e iludir. Mas, sabendo desse processo, já podemos estar atentos a não nos deixar influenciar de forma acrítica.

Se existem técnicas de informação que invisibilizam e excluem, façamos juntos o movimento contrário, que é tornar visível, valorizar, incluir, aprendermos juntos.

O que podemos aprender juntos? Uma boa experiência é criar espaços de trocas de todos esses saberes e culturas, ou seja, dar lugar a muitas falas, de lugares diferentes, jeitos de ser, de viver, de rezar, de comer, de plantar, de cuidar da saúde, de cuidar da família, de cuidar da renda comunitária.

Nestas trocas, mais uma vez, orientarmos para a escuta atenta, fraterna, sororal, acolhendo as diferenças. É muito importante a escuta das narrativas pessoais, pois elas trazem relatos, memórias, situações já vividas, saberes. Cada história pessoal está integrada nas histórias coletivas. A espiritualidade libertadora integra passado, presente e futuro como experiência de fidelidade e continuidade criativa. Sendo assim, narrativas pessoais são biografias, com sua identidade e pertencimento.

Ao nos disponibilizarmos para as escutas desses saberes particulares, vamos bebendo em muitas fontes, aprendendo juntos e sendo convidados a novas interpretações e experiências alternativas. Diferente de encararmos como uma técnica de comunicação, estamos falando de uma proposta de comunhão pela amorosidade, pela liberdade e criatividade. O Espírito que sopra é livre, criador de novas realidades, revolucionário e amoroso. Ele nos conduz.

A ventania da espiritualidade libertadora nos leva por caminhos proféticos, como corpos e vidas de muitas vozes e muitas histórias que se abraçam pessoal e comunitariamente. Não podemos deixar de lado causas, grupos, etnias, expressões religiosas, escolhas diversas. Nossa identidade é única e especial, mas também relacional e comunitária. Somos seres em comunhão.

“A liberdade haverá, a igualdade haverá

E nessa festa, onde a gente é irmão

O Deus da vida se faz comunhão.”

(Zé Vicente)

Fonte: Portal das CEBs

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