Cantar um Canto Novo com Rute

Vou cantar, entoar um canto novo, vou sair, chamar o povo pra louvar, Aleluia!” (Sl 65)

Por| Hermes A. Fernandes

Vivemos enlutados. De nossa boca, uma nênia, um canto de lamentação, se faz apropriado. Quiséramos o louvor, mas o pranto se nos escapa dos lábios.

A Escola da Palavra de Deus nos acompanha nestes sentimentos. São muitos os livros bíblicos que tratam destes. Sobretudo, no Primeiro (Antigo) Testamento. Neste ínterim, gostaríamos de chamar a atenção para o Livro de Rute.

O livro de Rute conta a história de duas viúvas pobres, Noemi e Rute. Assim como em nossos dias, o mundo de Noemi e Rute se fez ruir. Viúvas, pobres, sem filhos. Poderia haver desgraça maior? Ficam sem terra, sem família, sem trabalho (cf. Rt 1,1-21). Alguma semelhança com muitos de nossos irmãos e irmãs hoje? Com certeza, sim! Em meio a estes problemas, os acontecimentos e sentimentos expressos no Livro de Rute, são quase que uma escola, na qual, fica-nos uma lição de confiança em Javé, de amizade verdadeira, de valor pela família, de coragem para superar desafios. Uma leitura agradável, dado seu gênero literário. Como disse Frei Carlos Mesters, quase um poema!

Noemi foi obrigada a deixar Belém, sua terra, por causa da fome (Rt 1,1). Sua família era composta dela, seu marido e seus dois filhos. Migraram para as terras de Moab (Rt 1,2). Passados dez anos, sem poder voltar para sua terra (Rt 1,4), morre o marido de Noemi. Seus filhos se casaram com moças de lá. Sendo estas: Orfa e Rute. Por fim, morrem-lhe também os dois filhos. São três mulheres sozinhas (cf. Rt 1,1-5).

No início do Livro de Rute, temos elencados os sentimentos e ensinamentos que nele se encerra. Se atentarmos para os nomes das pessoas, podemos conhecer a realidade do povo, sobre o qual, se narra. Os nomes neste livro ajudam na compreensão do sentido e da lição inerente na história. Elimelec vem significar Meu Deus é Rei. Uma profissão de fé do Povo a Javé. A viúva muda seu nome quando lhe vem o sofrimento de Noemi para Mara (cf. Rt 1,13). Respectivamente, significam graça e amargura. Ainda teremos os nomes dos filhos de Noemi: Maalon e Quelion. Respectivamente, significam Doença e Fragilidade. Orfa, a primeira de suas noras, significa Costas. Rute, sua segunda nora, Amiga ou Saciada. Booz significa Pela Força. Obed, nome do filho que nasce ao fim da história, significa Servo. Nomes que encerram em si a dinâmica dos fatos.

É sob esta chave de leitura que entendemos o sentido da existência do Livro de Rute. Os personagens do livro são analogias à história de um povo. Sofrido, abandonado, sem esperança. Em busca de reconstruir sua história. Assim como foi no passado, podemos entender nossa história hoje. O Caminhar do Povo de Deus. Somos alcançados por sofrimentos. Muitas vezes, desprevenidos. Já transitamos da graça à amargura (de Noemi a Mara). Já nos sentimos doentes na esperança (Maalon), frágeis face ao sofrimento (Quelion).

Uma chave de entendimento do Livro de Rute é o chamado à Esperança. Esperança fundada no que Deus fez no passado e no que ele prometeu para o futuro. No tempo do Livro de Rute, já existia uma parte do Primeiro Testamento. O povo conhecia essa parte da Bíblia. Quase que de memória. É por isso que o livro usa frases e fatos do Primeiro Testamento para contextualizar o momento em que viviam Noemi e Rute. Percebemos claras referências aos livros Juízes, Isaías, Esdras, Miqueias. Entendemos com isso que no Livro de Rute se dá uma analogia à História do Povo de Deus. Seu passado, presente e futuro. Dor, sofrimento, esperança.

Visto que estavam sozinhas, sem marido em terra estrangeira; Noemi decide por retornar à terra de Judá (Rt 1,6-7). O início de tudo é levantar-se. Levantar-se e voltar para a terra em busca de pão. Sair do lugar de onde está. O luto sempre é justificado, mas reconstruir-se se faz imperativo. Unidas, sogra e noras – todas viúvas – eram pessoas sem voz e nem vez naqueles tempos. O que as une é a pobreza, o desejo de ter pão. Incerto era o caminho. Tomada pelo desânimo, Orfa deixa o grupo. Dá as costas (Rt 1,14). Volta para junto de seus familiares. Rute opta por permanecer unida a Noemi. Mesmo em uma escuridão interior, sem esperança, Noemi continua a caminhada. Rute a acompanha (Rt 1,14).

Muita gente entra na caminhada. Nem todos vão até o fim. Nem tudo é claro. É a própria caminhada que ajuda as pessoas a se definirem. A luz se faz é na travessia.

Tanta dor, frustração carregam estas viúvas. O desenrolar da história, se dá marcado pela busca de Direitos. Pela sensibilidade, pela ternura. Já de volta à terra de Noemi, Rute vai trabalhar nos campos de Booz. Quando Booz se encontra com Rute, a acolhe e lhe permite recolher os restolhos da colheita (Rt 2,8-9). Este era o sinal da caridade aos pobres. A dedicação por sua sogra inspirou os sentimentos benevolentes de Booz (Rt 2,8-9; 2,11-12; 2,14-17). Entretanto, a pessoa de Booz vem significar mais que benevolência. Na condição de viúva, era necessário que alguém fizesse uso do direito de resgate. Às mulheres era negado o direito à propriedade.

Em razão da fome, Noemi e seu finado marido foram aos campos de Moab. Isso não significa que não tinham propriedades em Judá. Estando viúvas, nem Noemi, nem Rute; poderiam exercer o direito à propriedade. Como dissemos, às mulheres era negado este direito. Daí a lei do resgate. Esta estabelecia, sobretudo, duas coisas: Primeiramente, quando alguém – por motivo de pobreza – era obrigado a vender sua terra, então seu parente mais próximo tinha obrigação de resgatar essa terra. Devia comprá-la. Não para si, mas para o parente próximo que corria o risco de perdê-la (cf. Lv 25,23-25). Outra forma de resgate é quando alguém, movido por extrema pobreza, é obrigado a vender-se na condição de escravo. Seu parente mais próximo tinha o dever de resgatá-lo, restaurando-lhe a liberdade (cf. Lv 25,47-49). Este parente próximo, em ambos os casos, era chamado goêl. Goêl é uma palavra hebraica que significa aquele que resgata, padrinho, protetor.

O problema de Noemi e Rute é apresentado a Booz. Seria ele um dos que poderiam exercer o Direito de resgate. Além da questão da posse da terra, o nome, a descendência do falecido marido de Noemi, não poderiam ficar esquecidos. Em Dt 25,5-6 esta questão é vista e celebrada em forma de lei. Lei Divina, preceito de Javé. Neste sentido, ao saber de seu Dever de resgate, Booz cuidou de tratar disso. Sondar de outro parente se era dele o desejo de exercer o resgate, senão, ele mesmo o faria. Noemi teve razão em dizer que Booz não ia descansar até resolver o problema (cf. Rt 3,18). Logo ao amanhecer, ele foi à porta da cidade (cf. Rt 4,1), chamou o outro parente que tinha Direito ao Resgate (cf. Rt 4,1), convocou dez pessoas do conselho como testemunhas (Rt 4,2), tratou da questão. Tudo conversado e resolvido. Booz iria exercer o Direito de Resgate e, mais que só cuidado com o direito à terra, iria – também – tomar Rute como esposa, assegurando a continuidade da família (cf. Rt 4,5). Logo em seguida, Booz começa a exercer o seu direito e a cumprir o seu dever. Exerce o direito de resgate, adquirindo todos os bens de Elimelec, Quelion e Maalon (cf. Rt 4,9). Cumpre o dever de cunhado, adquirindo Rute como esposa (Rt 4,10). Ele deixa bem claro que a posse da terra e a sobrevivência da família é uma só coisa. Ao unir-se a Rute, mais que Goêl, mais que um protetor, se faz amado. Une-se à mulher e, deste enlace, vem um filho: Obed. A vida renasce. Nela, os sorrisos. Sonhos são resgatados.

O Livro de Rute, em sua beleza, trata de dores e alento. Um pouco de nossa história, mesmo que prefigurada, se imprime nela. Noemi e Rute somos todos nós. Fadados ao sofrimentos, saímos a caminhar. A jornada pode ser árdua. O sonho é um só: fim do sofrer. Do penar. A Palavra de Deus nos deixa ensinamentos. Devemos tirar dela lições para nossas vidas (cf. 1Cor 10, 6-11). Contando a História do povo de Deus, seus erros e acertos, derrotas e vitórias; a Bíblia nos transmite uma verdade de fé, uma certeza muito importante para nossa caminhada. Ela nos ensina quão Deus é Javé! Deus: presença libertadora em meio ao seu povo. Javé estava ao lado de Noemi e Rute. Foi parceiro delas na luta pelo pão, pela família e pela terra! Bendito seja Javé! Em Javé, toda lágrima deu lugar ao riso. Todo pranto ao louvor. Com Noemi e Rute podemos, nas palavras do Salmo 65, cantar um canto novo. Louvor pela Libertação.

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