Projeto de vida – sob o prisma da fraternidade

Por| Ir. Liliane Pereira*

A nova Carta encíclica do Papa Francisco, Fratelli tutti, faz com que toda sociedade, e mais comprometidamente todo cristão, possa adentrar no caminho que conduz a humanidade para uma fraternidade universal, capaz de construir pontes, edificar pessoas, cultivar relações humanas e dignificantes.

É sob esse prisma que me atrevo a partilhar o capítulo três desse documento, que penso ser para cada um de nós um projeto pessoal e comunitário de vida, cujo objetivo primordial é fazer da fraternidade e da amizade social um ideal de construção de um mundo mais justo, fraterno, pacífico capaz de tornar a humanidade uma casa de irmãos e um mundo de gentes sempre em busca de um amor que dá sentido à vida.

No capítulo três surgem alguns elementos importantes capazes de sinalizar para uma forma concreta de construção dessas relações de irmandade tão caras e tão necessárias no mundo de hoje.

  •     Amor como marca fundamental- a encíclica nos recorda que o amor constrói pontes e que nós somos feitos para o amor. Esse amor cria vínculos, alarga o coração, faz com que o ser humano saia de si e vai em busca do outro para juntos construir dignidade, para juntos ressignificar o ser e o fazer de cada um, sem a lógica do mérito, mas conscientes de que todos são irmãos, isso gera uma relação centrada na gratuidade, aberta para a consciência de que tudo é graça de Deus.
  • Identidade pessoal- Esse encontro com o outro faz com que se perceba a diferença que está marcada em cada pessoa, em cada povo, em cada cultura. Essa diferença não é para dividir, antes é para ser acolhida e respeitada em sua individualidade. A globalização que destrói a riqueza e a singularidade de cada pessoa e de cada povo priva o mundo das cores e da beleza. Essa diversidade cultural leva a humanidade a um encontro com a interculturalidade e faz com que o fio que tece a colcha da diversidade seja o bem comum.
  • Fraternidade – esse valor caro a todo ser humano, dotado de consciência baliza a liberdade e leva a pessoa a construir relações subsidiadas pelo amor. Não é o caráter individualista que toma conta de si, mas um saber-se pertencente a uma casa comum, a uma humanidade, que faz com que o diálogo, respeito, solicitude, gratuidade dá contornos às suas relações.
  • A identidade moral benevolente- A consciência de pertencimento, mencionada acima é a mesma que faz com que a pessoa paute o seu fazer na busca pelo bem comum. Uma identidade benevolente é inclinada a um forte desejo de fazer o bem, é uma atitude de querer o bem, a exemplo do bom samaritano ( Lc 10, 25-37) que não se preocupa com o que vão pensar a seu respeito, mas dado ao amor e ao bem debruça sobre um desconhecido no chão e doa o que tem para curar e cuidar. Essa atitude é de fé, é moral, é ética, pois reconhece no outro, no seu próximo a oportunidade de colocar o amor a serviço.
  • A solidariedade – o Papa Francisco recorda que a solidariedade é uma virtude moral e comportamento social, fruto da conversão pessoal, exige empenho por parte duma multiplicidade de sujeitos que detêm responsabilidades de carácter educativo e formativo. Nesse ínterim, todos os envolvidos no ato de educar, desde a família até o ambiente social são corresponsáveis por plantar em cada pessoa os germes do amor e da fraternidade, independentemente da idade ou da condição, todos são convidados a cultivar essas sementes que gratuitamente recebe do criador. A solidariedade manifesta-se em gestos concretos de cuidado e atenção aos outros, especialmente os que estão à margem, aqueles que não podem oferecer “nada” em troca, mas que dignifica a vida daqueles e daquelas que se colocam a serviço e fazem do seu ser e fazer uma doação constante aos irmãos e irmãs.

Enfim, o texto ora apresentado é despretensioso e deseja apenas partilhar com os leitores desse jornal a riqueza que contem nessa carta Encíclica que inspirada em São Francisco de Assis, já coloca a humanidade numa teia de relações em que não há melhores nem piores, não há seletos, prediletos nem excluídos, mas irmãos e como tal o amor será sempre a base das relações que só pode se concretizar a partir de encontros verdadeiros, edificantes.

Obs.: Artigo publicado na Revista O Santuário, da Arquidiocese de Santa Maria.  

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Ir. Liliane Pereira é Enfermeira, professora da UFN. Especialista em Gestão Hospitalar e dos serviços de saúde.  Especialista em Bíblia pelo VI DABAR-  EST/CEBI. Mestre em enfermagem PPGEnf FURG.  Doutora em enfermagem PPGEnf FURG. Diretora do Hospital Casa de Saúde/UPA Santa Maria RS.  

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