“Vamos começar tudo de novo, pois – até agora – pouco, ou nada fizemos.”

Por| Hermes Abreu, ofm

Com as palavras de S. Francisco de Assis, somos motivados a fazer memória do ano litúrgico que chega ao fim. Na Primeira Vida, escrita por Tomás de Celano (1Cel), vem-nos a imagem de um homem que se fez novo com o Cristo. Celano quis mostrar Francisco como um renovador da Igreja. Para ele, Francisco, “tomado pelo novo e especial espírito” (6), era “o novo soldado de Cristo” (9), que dirigia os “novos discípulos de Cristo” (34, 38), os “primeiros e melhores frutos” da “vinha escolhida”, “que a mão do Senhor tinha plantado havia pouco neste mundo” (74). Esse “homem do outro mundo” (82), dizia até o fim: “Vamos começar a servir a Deus, meus irmãos, porque até agora fizemos pouco ou nada” (103). Celano está sempre lembrando a novidade de Francisco. A ideia de “soldado de Cristo” é uma reminiscência da vida de São Martinho de Tours. Essa “novidade” pode ser apreciada nos números 10, 11, 18, 26, 33, 37, 41, 92, 85, 89, 98, 114, 119, 121 e 122.

A caminhada de São Francisco de Assis rumo ao seguimento ideal de Jesus, nos inspira por várias áuspices. Assim como muitos eram os elementos desfavoráveis em sua história, assim são os nossos. Distamos há mais de 800 anos dele, entretanto, nossa sociedade – mutatis mutandi – nada tem de mais alvissareira. Tão quanto em tempos de Francisco, a pobreza hoje aflige os pequenos. Não se pode negar que a Justiça Social se tornou tema de debate, mas está esquecida em atos de governo. Há muitos os que a pensam, poucos os que a pragmatizam. Até mesmo encontramos os confessos assassinos da dignidade humana. Com seus ideais de higienização social, veem os pobres como lixo desnecessário e indesejado aos olhos dos bem nascidos.

Olhando a história de Francisco de Assis, podemos nos ver hoje. O mundo chora a dor dos esquecidos, mesma dor sentida por Francisco. Mesma inquietação que o feriu face à opulenta vida em seu lar de Assis. Somos também chamados pelo Senhor como ele o foi? Nossa dor diante do sofrimento dos pequenos se dá como a dele? Ou nos perdemos em teorias, sem nos despojar diante do outro. Sem nos jogarmos na aventura do acolhimento, do serviço, da fraternidade, nada entendendo da vivência do Evangelho.

A Igreja, em tempos de Francisco, se acastelara em suas catedrais e abadias. Francisco percebeu esta dicotomia. Aos abastados, portas abertas e afeto. Aos miseráveis, as praças e periferias. Uma Igreja que acolhe os perfumados e exclui os fétidos, oriundos da extrema pobreza. Aos miseráveis era vetado o convívio comum com os nobres e burgueses na Liturgia. Este paradoxo com o Evangelho foi entendido por Francisco. Posta-se ao lado dos miseráveis. Rompe com a realidade opressora da sociedade Assisense. Em vez da púrpura, a lama. Em negação ao perfume, o fedor. Vai ao encontro dos pobres. Mesmo que rejeitado pelos seus concidadãos e, por vezes, pelos mesmos pobres que escolheu como seus iguais. Dor, coragem, sofrimento, superação. Assim se deu o itinerário de Francisco. E “o que era amargo, se tornou doce”.

Nossa Igreja hoje vive o desejo de renovar-se, ao exemplo do Poverello de Assis. Todavia, não são poucos os movimentos em oposição à mudança. Enquanto nosso Papa pede uma Igreja pobre com os pobres, pastores com cheiro de ovelhas; há os que reclamam pela volta do latim, dos ritos tridentinos. Mais que um retrocesso litúrgico, acusam de heréticas todas as iniciativas por justiça social, por ética, por Direito. Como se não viesse da própria Palavra de Deus estes imperativos. Bem lembrada é agora uma palavra de Dom Helder Câmara, na qual, diz: “Quando dou pão ao pobre, muitos me chamam de santo, quando questiono por que o pobre não tem pão, rotulam-me comunista”.

Já se passaram 800 anos. E o chamado, vindo da Cruz de São Damião, não quer calar: “Não vê que minha casa está em ruína? Vá e restaure-a para mim!”

Com o fim deste ano Litúrgico, devemos nos avaliar. Revisar. Reinventar. A dor nos feriu. Milhares de mortos. Abandono. Descaso. Que Igreja queremos? Uma que se cala diante da morte? Ou podemos clamar das praças – assim como o fez Francisco de Assis – o sonho de Deus para a Casa Humana? Sonho este que é justiça, paz e Alegria (cf. Am 5,24; Mt 6,33; Jo 10,10; Sl 147,3)! Ou nos deixamos seduzir pela radicalidade do Evangelho, ou nos negamos ao Projeto de Jesus. Assim como Francisco de Assis, devemos amar sempre, acolher sempre, perdoar sempre e – incondicionalmente – estar ao lado dos mais fracos. Ou nos deixamos inspirar e suscitar pela profecia, ou as pedras clamarão (cf Lc 19,40).

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