Os Escritos de São Francisco de Assis


Por| Ir. Suellen Simões*

Não há melhor maneira de conhecer alguém profundamente, senão por meio daquilo que escreve. Em cada escrito se imprime a essência do ser que o produz.  Ainda que, no exato momento da produção não esteja clara esta intenção, é inevitável não depositar ao menos um pouco (senão tudo) de si naquilo que se escreve. Seja involuntário ou não, há em cada palavra a expressão de si mesmo, de suas convicções, de sua ideologia, de suas crenças e muito mais. Basta ler com os olhos atentos, a mente aberta e o coração desejoso para adentrar o mistério de cada autor. Para isso faz-se necessário ler além das palavras, ler as entrelinhas, captando o que há nelas e além delas, e inclusive ler a escolha de tais palavras utilizadas nos escritos. Interpretá-las com a razão e com a emoção. Ler com todos os nossos sentidos nos propicia uma verdadeira aproximação do autor. Por melhor que seja escrita, nem mesmo uma biografia será tão fiel à verdade de alguém quanto algo produzido por ele mesmo.

Com esta ideia, fui convidada a mergulhar nos escritos de Francisco. Esquecer por algum tempo tudo que sabia sobre ele até então, para conhecê-lo por meio daquilo que nos deixou com suas palavras e que fez tanta questão de que fossem reproduzidos. “E que saibam que têm a bênção do Senhor Deus e a minha todos os meus irmãos custódios aos quais chegar este escrito e o copiarem e o tiverem consigo, e o fizerem copiar para os irmãos, e pregarem até o fim tudo que está contido neste escrito.” ( Carta aos custódios, 10)

Francisco é um santo muito popular em várias partes do mundo. Traz consigo uma imagem cativante e encantadora que agrada a muitos, independente de idade, classe social e até mesmo de religião. Quando São João Paulo II rezava: “Francisco, o mundo tem saudades de ti!”, fazia uma afirmação que talvez seja o principal motivo pelo qual tantas pessoas de identificam com o santo promotor da paz e amante da pobreza. Num universo globalizado, sedento de poder e cada vez mais individualista, um homem simples, pobre e que inaugurou aquilo que chamamos Vida fraterna, torna-se um símbolo, um sonho, um desejo inconsciente, porém abrasador. Comungamos de seus ideais ainda hoje e, porque não dizer principalmente hoje. De fato, o mundo tem saudades.

O jovem Francisco tornou-se um verdadeiro promotor da paz e o fez por um motivo: Ele experimentou a guerra, ele sofreu a sua dor. A sua experiência foi o suficiente para impulsioná-lo. E isto é visível em cada uma de suas palavras, pois são frutos de sua experiência pessoal. Ele já não era o mesmo e deu-se ali o início de seu processo de conversão.  Aquele que primeiro experimentou a guerra transformou-se em instrumento de paz. Na prisão teve seu primeiro contato com aquelas palavras que, futuramente, seriam sua forma de vida: o Evangelho. Seus escritos apresentam sua busca. São permeados por longos trechos do santo texto, construídos por seus recortes e sempre com muita concretude. Quando se refere à Palavra do Senhor, sempre a diz no presente: “Diz o Senhor…”, pois atualiza a mensagem evangélica.

A liberdade também é um traço marcante no perfil de Francisco. “Aos que quiserem…” Não há sinal de imposição quanto àquilo que propõe, mas sim uma abertura ao Espírito. Aquele que o quisesse seguir em tal aventura deveria abrir-se ao Espírito do Senhor e nada mais. Assim, caracteriza-se o sentido de livre arbítrio e consciência, necessários para o seguimento.

A jovialidade e a alegria também são características profundas que não saíram de cena após a sua conversão, mas ganharam novo sentido, brotava de fonte segura, do Senhor (Dominus), ou seja, Aquele que motivou desde o princípio o seu processo de conversão. E por falar em conversão não se pode deixar de citar o episódio do encontro com o leproso, ponto crucial de sua “nova vida”.

Nenhum outro episódio é descrito com tamanho valor e relevância.

Suas cartas retratam bem o sentido de exortação. São diretas e simples, sem conteúdos vazios, sem busca de informações desnecessárias aos seus olhos. Admoestar era a função principal. Impulsionava os seguidores à saída, irmãos itinerantes desde o princípio. Recordava a todos a misericórdia e seu valor inestimável na vivência fraterna, no convívio entre os irmãos no qual pautou toda a sua vida numa alternância entre atividade e o amor pela contemplação. Antes de propor cada coisa ele vivia intensamente. Procurava silenciar sobre o pecado de seu irmão e jamais o expunha aos olhos alheios. Pregava principalmente através de sua vida, seu testemunho e falava aos dispostos e assim ensinava. A cortesia e a cordialidade são os primeiros testemunhos missionários.

Utiliza-se de inúmeros laços familiares. A vida entre “irmãos”, o uso do substantivo feminino “Mãe”, para referir-se ao guardião de cada fraternidade, à Virgem Maria, à terra e à Igreja, de “filho” para os demais frades que compõem a fraternidade e “Pai” unicamente para dirigir-se ao Senhor. À Virgem Maria expressa forte devoção e a descreve por diversos títulos:

“Salve, ó palácio do Senhor!
Salve, ó tabernáculo do Senhor!
Salve, ó casa do Senhor!
Salve, ó manto do Senhor!
Salve, ó serva do Senhor!
Salve, ó mãe do Senhor!”

 “Tabernáculo do Senhor” remete-nos ao seu profundo zelo pela Eucaristia. Para ele o Pão e a Palavra têm grande força de sentido e são verdadeiramente o próprio Cristo e não poderia ser diferente.Francisco contempla com seus olhos espirituais. E daí também provém o respeito e veneração pelos sacerdotes que, recebem em suas mãos o Cristo sob uma pequena forma de pão e faz-nos recordar o também o dia que desceu ao útero da Virgem.

Quanto às suas orações, em sua maioria caracterizam-se por textos espontâneos, escritos por terceiros e, embora ditos em momentos distintos, foram organizados numa sequência. São marcadas por grande gratuidade. Ao invés de petições são hinos de louvores a Deus pelo simples fato de ser Deus. É um constante convite à oração, ao louvor a Deus e ao reconhecimento de sua grandeza e onipotência.

Francisco é um fiel seguidor do Evangelho e a sua história não nos deixa perceber o quanto ele, no início, não sabia o que fazer e como caminhou em busca da vontade de Deus. É de extrema importância considerar seu contexto social, sua família, os anseios da juventude da época e lê-lo como um jovem medieval que almejava os sonhos daquele tempo. Aproximamo-nos dele, porém sem retirá-lo daquilo que o cercava, a fim de compreendê-lo melhor. Embora um grande poeta que inaugurou a literatura italiana com o Cântico das criaturas, sua vida não era bem uma poesia, um romantismo cantado ao mundo de forma melodiosa. Sua vida era uma verdade, uma realidade sem tantos adornos literários. A lágrima dos olhos, ditas como o choro da Paixão do Cristo, deve-se ao grave problema de vista que o acometia. A oração a ele atribuída é, na verdade composta no século XVIII. E explicita em seus escritos algumas influências do Islã, já que a visita ao sultão possivelmente durou alguns meses e o seu objetivo nunca foi convertê-lo, mas uma negociação de paz.

Muito se descobre por meio de seus escritos, mas nem todo o tempo e leitura são suficientes para compreendê-lo totalmente e de uma só vez. E é também próprio do ser humano que não seja possível desvendar todo o mistério que nos habita. Desta forma iniciamos um caminho rumo à pessoa de Francisco, uma introdução com palavras capazes de expressar seu senso de minoridade, simplicidade e pobreza. Seu amor pela Eucaristia, pela Igreja e por seus irmãos. Sua devoção à Virgem mãe de Deus. Descobrimos o Francisco real, o jovem repleto de sonhos e um revolucionário dos tempos medievais. Aprofundemo-nos em seu mistério e deixemo-nos interpelar por seu testemunho e por seu grande amor a Deus e aos irmãos.

(*Juniorista IFA)

Fonte: Franciscanas Alcantarinas

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