O VIOLINO DE FRANCISCO – Parte 1

Por| Frei Vitório Mazzuco, OFM

O violino é instrumento que toca muito os sentimentos. Toda música tocada através dele se transforma. De Vivaldi a uma melodia de Anavitória, a força melódica invade a nossa atenção. Violinistas de ontem e de hoje lotam sala de concertos e são ouvidos em sua virtuose: Paganini, Eugène Ysaye e Yehudi Menuhin. Minha professora de violão e multi-instrumentista, minha eterna inspiradora na sensibilidade musical, Dna. Lydia Nonato Teixeira, de eterna memória, ensinou-me a paixão por este instrumento. Dizia ela: “Violão e violino estão muito próximos do corpo do afeto, porque você traz para perto do coração e encosta o rosto como um casal de enamorados”.

Ela adotou, como aluno, um dos agentes ambientais de Agudos, SP, um funcionário da coleta de lixo da cidade, que ao se aproximar para recolher os sacos de lixos da frente da casa, a ouviu tocando violino. Encantou-se e foi encantado. Mostrou a vontade que tinha de aprender e Dna. Lydia prontificou-se a dar aulas para ele. Algumas pessoas, a partir de um velado preconceito, a repreenderam dizendo como ela trazia para dentro da casa um lixeiro, roupas sujas, unhas sujas, mãos duras e calejadas, cheirando mal. Ela contava isto para mim com os olhos brilhando de felicidade e certezas, e dizia: “As pessoas não sabem que quem gosta muito de música é naturalmente uma pessoa boa; eu jamais terei medo de uma alma que tem a música”. Meus olhos marejaram com estas palavras e eu escondi timidamente a minha vontade de desabar em choro; então contei para Dna. Lydia que São Francisco tocava violino com dois pedaços de pau e ela derramou lágrimas de emoção sem esconder o choro.

Existem no mundo violinos famosos nas marcas e nas mãos dos grandes concertistas e dos músicos que estão nas ruas e nos eventos. Todos sabem o que é um Stradivarius, um Höfner, um Eagle, Yamaha, Stentor e um Rolim, mas um violino tocado em dois pedaços de pau? No século XIII, os biógrafos de Francisco de Assis narram o fato. Vejamos o relato de Tomás de Celano: “E por vezes fazia coisas como estas. Quando fervia dentro dele a mais suave melodia do espírito, ele a expressava exteriormente em língua francesa, e a veia do divino sussurro, que seu ouvido captava furtivamente, prorrompia em júbilo cantando em francês. De vez em quando, como eu vi com os meus próprios olhos, ele colhia do chão um pedaço de pau e, colocando-o sobre o braço esquerdo, mantinha um pequeno arco curvado por um fio na mão direita, puxando-o sobre o pedaço de pau como sobre um violino e, apresentando para isto movimentos próprios, cantava em francês cânticos sobre o Senhor. Frequentemente todas estas danças terminavam em lágrimas, e este júbilo se convertia em compaixão para paixão de Cristo”. (2Cel 127, 1-5).

Outro relato do Espelho da Perfeição: “Às vezes, recolhia um pedaço de madeira, pousava-o sobre o braço esquerdo, com a mão direita passava sobre ele outro pedaço de madeira, à moda de arco de uma viola ou outro instrumento” (2EP 93, 3-4). E de modo semelhante a estas duas narrativas temos na Compilação de Assis: “De vez em quando, como vi com meus próprios olhos, ele colhia do chão um pedaço de pau e, colocando-o sobre o braço esquerdo, mantinha um pequeno arco curvado na mão direita, puxando-o sobre o pedaço de pau como sobre um violino!” (CA 38, 3).

CONTINUA
FREI VITORIO MAZZUCO

Fonte: Blog do Frei Vitório

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