Reflexões Litúrgicas – Parte 40: Catequese e Liturgia: Duas faces do mesmo mistério (I)

Por| Pe. Vanildo Paiva
  1. Um documento sobre Liturgia

Um dos documentos mais importantes do Concílio Vaticano II chama-se Sacrossanto Concílio (SC). Trata da Liturgia e foi a primeira Constituição a ser aprovada, praticamente por unanimidade, o que mostrou a urgência de mudanças nesse setor da ação da Igreja.

O ponto de partida está no resgate da centralidade do Mistério Pascal na ação litúrgica e sua prioridade sobre as exterioridades dos rituais e cerimônias. Em outras palavras, Jesus Cristo é recolocado como o centro de toda a vida cristã – e, por isso mesmo, da Liturgia – e como eixo da ação da Igreja, povo de Deus. Ele é a razão de ser do culto e da vida de todo fiel. Com Cristo, por Cristo e em Cristo, tudo adquire novo significado.

2. Celebrar os Sacramentos a partir de Jesus

Dessa visão cristocêntrica da Liturgia brota um sentido denso para a prática sacramental. Os sacramentos não podiam mais ser vistos simplesmente como remédios para situações emergenciais da vida do cristão, ou como mera conveniência social, mas como verdadeira participação da pessoa no Mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo, no qual ela também “morre e ressuscita” para uma vida nova. Infelizmente, muitos, ainda hoje, têm uma visão mágica dos sacramentos, o que denota uma deficiência na catequese de nosso povo.

3. A participação de todo o povo

Outra grande conquista dessa Constituição foi a participação plena, consciente e ativa de todo o povo nas celebrações litúrgicas (cf. SC 14). Foi dado por encerrado o tempo em que o povo “assistia” à missa, rezava o terço ou lia o livrinho devocional de “seu” santo favorito durante a celebração. Incentivou-se uma valorização dos ministérios diversos na Liturgia e se permitiu que cada povo pudesse celebrar usando a sua própria língua e costumes, e não mais o latim. Também há, nesse aspecto, muito por fazer, e a formação da assembléia celebrante, seja na catequese ou na própria liturgia, ainda não foi suficiente para alcançar aquela consciência desejada pelo Concílio, embora tenhamos avançado bastante.

4. O lugar da Palavra na vida cristã

A Palavra proclamada e explicada na Liturgia foi outro elemento que muito favoreceu esse resgate da tradição litúrgica. Não somente na celebração da missa, mas em todos os demais sacramentos, a Palavra constitui momento forte de aprofundamento da fé e de catequese do povo. Inclusive as celebrações da Palavra, permitidas e incentivadas pelo Concílio, vieram fortalecer a vida de tantas comunidades, muitas das quais não têm a oportunidade da presença do padre ou da Eucaristia. Vivem da Palavra de Deus!

5. Liturgia: fonte e ápice da vida cristã

A Igreja voltou seu olhar para a Liturgia, apontando-a como ponto de partida e ponto de chegada de toda a vida cristã (cf. SC 10). Desse modo, ela recuperou o seu posto de fonte da espiritualidade da Igreja e de “catecismo permanente”. A valorização do que se celebra – os mistérios da vida de Cristo e da vida do cristão – encontrou ênfase sobre o aparato externo dos ritos, já saturados pelo formalismo, preocupação com rubricas, alfaias e objetos litúrgicos luxuosos… Uma Liturgia mais vivencial, a partir da realidade do povo e menos instrumentalizada, que introduza o povo celebrante no profundo Mistério de Deus foi a grande proposta do Concílio!



Pe. Vanildo Paiva
Professor do Instituto Regional de Pastoral Catequética – IRPAC -Leste II

Fonte: https://catequesehoje.org.br/

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