Política cidadã

Por| Dom Walmor Oliveira de Azevedo

O tamanho do descrédito com a política é impactante, principalmente quando se considera a política partidária, incapaz de contribuir na construção de entendimentos que promovam o bem comum, a partir do respeito à sociedade civil na sua insubstituível importância. Reconhecer a importância da sociedade civil é caminho para superar o descrédito com a política. A credibilidade perdida pelo campo político não será recuperada apenas pela união de pessoas credíveis, mas, principalmente, a partir da competência humanística de perceber o valor determinante da sociedade civil. Bem se compreende, no horizonte da Doutrina Social da Igreja Católica, que a comunidade política está a serviço da sociedade civil. Trata-se de um dos fundamentos da democracia.

O Papa Francisco reforça essa convicção na Carta Encíclica Fratelli Tutti ao indicar o papel de líderes capazes de interpretar o sentir do povo, a sua dinâmica cultural e as grandes tendências da sociedade. Líderes qualificados contribuem significativamente para alicerçar um projeto duradouro de transformação e crescimento, privilegiando sempre, por amplo e aprofundado sentido humanístico, o bem comum. Nessa tarefa, reconhecem a preponderância da sociedade civil, que tem por finalidade garantir, a cada pessoa, o direito a esse bem universal. No exercício da política cidadã, percebe-se o inegociável valor das mobilizações que busquem defender interesses cidadãos legítimos. E há de se reconhecer que a comunidade política, embora colegiada e constituindo poder independente, deve se orientar a partir da sociedade civil, hierarquicamente mais importante.

Nessa perspectiva, interesses da dimensão político-partidária deveriam ser relativizados. Essa dimensão precisa estar a serviço da articulação de confrontos ideológicos e de diferenças, para fazer valer a construção de uma sociedade justa e solidária. Há comprometimento da política cidadã quando definições e atitudes buscam claramente contemplar apenas interesses particulares dos que podem mais. Da mesma forma, deturpa-se a política quando o meio ambiente é tratado inadequadamente, sob o jugo da idolatria do dinheiro. A consequência é o enriquecimento de poucos – para muitos, sobram migalhas.  Não raramente, nem a lei consegue penalizar os que depredam a Casa Comum, colocando vidas em risco ou as submetendo a dependências equivalentes à escravidão.

Tudo que fere o bem comum enfraquece a política cidadã. Particularmente, merece atenção a ameaça da desigualdade social, com seus vergonhosos cenários que degradam a sociedade, geram exclusão, aprisionando cidadãos em preconceitos e discriminações. O populismo insano, alerta o Papa Francisco, também ameaça a política cidadã. Quem exerce esse tipo de populismo busca atrair consensos e instrumentalizar politicamente a cultura do povo, sob qualquer sinal ideológico, a serviço de um projeto pessoal ou da própria permanência no poder. Não menos grave é quando esse populismo insano, na busca por adesões a projetos pessoais, alimenta as inclinações mais baixas e egoístas de setores da população, submetendo instituições e o ordenamento legal ao servilismo. Oportuna é a afirmação do Papa Francisco, na Carta Encíclica Fratelli Tutti, quando sublinha que um povo dinâmico e com futuro é aquele que permanece constantemente aberto a novas sínteses, assumindo em si o que é diverso, assimilando interpelações e se enriquecendo de muitos modos.

O Papa Francisco diz que a política cidadã não avança quando se deixa de oferecer às pessoas os recursos para o seu desenvolvimento, de modo que possam sustentar a vida com o seu esforço e a sua criatividade. Por isso mesmo, torna-se ainda mais necessário superar a desigualdade social, com responsabilidade e competência humanística. Esse itinerário contempla a tarefa de se buscar uma economia que faça frutificar as potencialidades de cada região e assegurar uma equidade sustentável, sem o comum extrativismo desarvorado e a ganância que adoece o planeta. A lógica financista de tratar os bens da natureza já revela prejuízos – entre eles as misérias e as pandemias -, caminhos para a sepultura de uma civilização que constrói, lamentavelmente, seu fracasso e o seu fim.

A tarefa de melhor compreender a política cidadã deve mobilizar cada pessoa e, particularmente, os representantes do povo. Os que estão no poder não podem renunciar ao objetivo de ajudar a construir um modelo de sociedade que, conforme indica o Papa Francisco, assegure a todos o direito ao exercício da cidadania, a partir dos próprios esforços e capacidades. Isso inclui considerar a dimensão social do trabalho, que é o “ganha pão” e o caminho para o crescimento pessoal, a oportunidade para se estabelecer relações sadias e partilhar dons, cultivando a corresponsabilidade no desenvolvimento do mundo. Todos se abram a novos aprendizados para alavancar a política cidadã.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

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