Onde erra o Papa Francisco?

Por| Hermes Abreu, ofm

Ao fim do conclave ocorrido aos dias 12 de 13 de março de 2013, foi eleito Papa Francisco. Desde a cerimônia do Habemus Papa, percebeu-se que algo de novo se instaurava aí. Vestido com as sotainas cotidianas de um papa (o branco básico), sem nenhuma insígnia sacerdotal, ou mesmo pontifícia; transparecia a simplicidade. Se não bastasse ser um conclave original na história recente – consequência da renúncia de um papa – a pessoa que desponta na sacada não advinha do velho mundo. Era latino, sulamericano, argentino. Como o próprio Francisco assim o definiu, um cardeal do fim do mundo.

Ao contrário do que muitos aspirantes ao legalismo canônico podem dizer, não há sombra de dúvidas da legitimidade do conclave, no qual, elegeu-se o Papa Francisco. Não tínhamos memória de um papa aposentado. Quanto menos, da renúncia de algum. Não lembrávamos, mas já acontecera. Estava previsto nos cânones. As normas para a realização do conclave de 2013 estão previstas no Código de Direito Canônico, (Cân. 332) e regulamentadas pela Constituição Apostólica Universi dominici gregis, do Papa João Paulo II. Neste sentido, não há sombra de dúvidas: Habemus Papa. Franciscus, Pontifex I.

Certo. Afora à originalidade de sua eleição, sua curiosa nacionalidade; Francisco já iniciou seu pontificado mostrando ao que veio. Refere-se à sua eleição como a do bispo de Roma. Não se intitulando Sumo Pontífice. Canonicamente, nenhum erro. Todavia, claro sinal de simplicidade. Em seguida, propõe uma prece pelo Papa emérito, Bento XVI. Sinal de sensibilidade com o outro. Continua, falando de fraternidade entre todos. De caminhos de evangelização. De Misericórdia e Caridade. Por fim, diz que é certo que o bispo de Roma abençoe seu povo, mas ele pede – humildemente – que o povo peça ao Altíssimo que o abençoe. Mais que um onomástico, o novo Papa deseja repetir os passos de São Francisco de Assis. Um Papa que, desde os primeiros minutos de seu ministério, anuncia uma era de misericórdia, caridade, fé em um Deus que ama os pequeninos. Tudo isso, temperado com a tão cara – senão rara – virtude da humildade.

A oração humilde obtêm misericórdia

Passou o tempo. A era Francisco se faz inovadora. O 266º pontífice da Igreja Católica, não está no meio de nós para ser mais um.  Desde que assumiu, o Papa vem chamando a atenção por suas características de liderança que está orientando a Igreja Católica para uma profunda reforma, além de utilizar de sua importância no cenário internacional para postular soluções pacíficas para conflitos históricos. Inovador e tradicional. Um paradoxo que o define. Inovador, pois difere em quase tudo na postura de ser e agir da milenar cúria romana. Tradicional, pois sua inspiração é bimilenar: o próprio Evangelho.

Vaticano altera tradução de documento sobre gays e reduz abertura da Igreja  a eles - Jornal O Globo

Papa Francisco é acessível, disponível, despojado. O líder que é inacessível, que não está interessado naqueles que orienta, não suscita confiança e assim não possui respaldo para liderar. Em diversas ocasiões o pontífice surpreendeu a todos ao atender pessoas no meio da rua.

Como Papa Francisco vai passar o II Dia Mundial dos Pobres instituído por  ele em 2016 - CNBB

Um Papa verdadeiro. A falta de transparência implica na perda da confiança. Tratar de temas que até então não eram abordados publicamente pela Igreja, como questões de gênero e direitos de minorias, mostraram que o pontífice preza pela verdade, pela clareza.

Fala Chico: Papa lança o Dia Mundial dos Pobres - 19 de novembro

Em diversos pronunciamentos, o Papa discorreu contra a ostentação e, ao observar suas atitudes, percebemos que há coerência entre o que se fala e o que se faz. Um líder que diz uma coisa, mas se comporta da forma oposta não gera credibilidade.

Saiba como viver bem o Ano da Misericórdia

Definitivamente, um Papa que edifica e incomoda. Além dos pontos que elencamos acima, nos quais focamos elucidar que tipo de líder é o Papa, não podemos esquecer que este é um pastor. O Pastor maior da Igreja Católica. Uma palavra define seu pontificado: Misericórdia. Fruto do amor fraterno e universal, Francisco tem se destacado pautando sua pastoral em uma Igreja que seja construtora de pontes e não muros. Para Francisco não há fronteiras para a misericórdia. Ele abraça a todos. Sem distinção. Tanto o faz, que em 2016 instaurou o Ano do Jubileu da Misericórdia. Uma celebração que infere de sua essência e nos lança aos gestos que lhe concorrem. Ao celebrar o Jubileu da Misericórdia, Papa Francisco nos exorta ao Ano da Graça do Senhor, profetizado por Isaías (cf. Is 61,1ss). Fazer de nossas vidas, enquanto cristãos, um viver obstinado pelos imperativos elencados pelo Profeta. Anunciar a Boa Nova aos pobres. A Liberdade aos Cativos. Curar os corações feridos, entre tantas outras vias da Misericórdia.

Papa: estender a mão ao pobre requer treino diário - Vatican News

Por fim, depois de fazer memória do pontificado do Papa Francisco, podemos nos perguntar: Por que ele incomoda tanto? Um Papa que defende o Cristo Pobre e – consequentemente – uma Igreja Pobre entre os pobres; pode não agradar a alguns viciados nas relações de poder.

Não é ele nosso sumo pontífice? Não depositamos nele o munus sacerdotalis supremo, como representante do Cristo, sacerdote e vítima? São esses os maiores argumentos quando um ultraconservador deseja defender o uso da batina, a fidelidade às rubricas litúrgicas, entre outras idiossincrasias da turma mais afeita ao antigo. Dizemos este “antigo” com total despretensão de crítica, pois, se antigo fosse ruim, produto de antiquário não custaria tão caro. O que nos espanta é a dualidade na valência de argumentos. Quando interessa, a tradição, a obediência, são defendidas às unhas e dentes. Quando não, pode-se ser rebelde. Se o munus sacerdotalis vale para defender a tradição, vale também como argumento à obediência ao Papa. Outrossim, o que vejo são acusações de omissão em casos de pedofilia, apoio do Papa à homossexualidade, heresia na interpretação dos evangelhos e por aí vai. Factus mirabilis.

Se olharmos pelo prisma da moda, nem os afeitos ao catolicismo fantástico, que falam mais de exorcismo ao demônio do que sobre axiomas teológicos – nem estes – estão corretos. O demônio é o divisor. Diabólico, na raiz grega da palavra, significa aquele que divide. Contraditório alguém postar vídeos, escrever livros sobre exorcismo – a nova onda na barca de Pedro – e criticar, colocar em dúvida, o ministério sumo-pontifício.

Papa Francisco almoça com 1,5 mil moradores de rua no Dia Mundial dos Pobres  | Mundo | G1

Enquanto se discute se o Papa tem ou não culpa por omissão nos casos de pedofilia, se apoia ou não a homossexualidade, se ele incorre ou não em heresias na hermenêutica bíblica, suas palavras são esquecidas. Nossas ruas estão cheias de miseráveis, um político “doido-matador-homofófico-machista-pirado-na-batatinha” deixa o Brasil queimar. Além de muitos escândalos de nossa sociedade. Mazelas que nosso Papa sempre nos abre os olhos e exorta a corrigir à luz da fé.

Enquanto a perseguição ao Papa Francisco se configura, clérigos em suas vestes lindas e seus Land Rovers brilhantes; desfilam dignidade e ortodoxia. Heresia é se calar diante da morte por miséria e abandono. Preferimos a suposta heresia do Papa, à uma Igreja imensamente corrompida por poder e ganância. Francisco de Assis também foi suspeito de heresia em seu tempo. Sua heresia foi ter escolhido Jesus Pobre.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: