O Problema da Religião a Serviço do Poder – Uma reflexão sobre a Teologia da Prosperidade ou da Retribuição

Por| Hermes Abreu

O homem, na descoberta de seu eu, confrontado por sua diversidade terrena – demais animais que lhe diferem, mas coexistem – entende que há grande organização entre os viventes. Mais que ocaso, a coexistência de todas as coisas, atesta a necessidade de se haver um Bem maior que lhe fora criador e, quiçá, mantenedor. Pela percepção do Cosmos, não o ocaso, entende-se a necessidade da existência do criador. Neste olhar cosmológico, mostra-se ciente de sua imanência, não tardando a conceber a transcendência. O homem descobre Deus. Assim se dá as cosmogonias mais primitivas, e – como não poderia ser diferente – a hebraica, da qual, a cristandade é herdeira.

Com o cristianismo, chegamos à plenitude do conhecimento de Deus. Humanizado na pessoa de Jesus – Deus se faz homem pela encarnação – transcendendo a humanidade a si. Na dialética pecado-redenção, eleva o homem ao eterno, o Reino de Deus. Da imanência à transcendência.

O Reino dos Céus, conteúdo da fé cristã, é o reino da eternidade. Eternidade que irrompeu na história humana e se fez carne: o transcendente, o sentido de tudo, o logos se fez presente na história humana. Exatamente por isso tornou-se alcançável, tangível. O esforço da teologia será mostrar que esta aparente contradição não trai a racionalidade, mas a aperfeiçoa. A verdadeira teologia é uma tentativa de reflexão que tenta conciliar os paradoxos e aparentes contradições da fé com a racionalidade.

Aprioristicamente, nada de pernicioso em tais reflexões. Não o seria se homens e mulheres não tentassem dosar esse Deus transcendente, pelas medidas de nossa humanidade imanente. Há quem queira não só mensurá-lo e, sim, limitá-lo aos conceitos e ideias do século. Não são raras as manifestações de um pensar e sentir Deus, papel da Religião, adequados aos critérios e – lamentavelmente – anseios humanos. Anseios estes que, perniciosamente, nada trazem do Sagrado.

Usura, conflitos de poder, ambição. Apego à materialidade da existência. Valores que motivam mecanismos destrutivos e antagônicos ao conceito de ser cristão. Religião que busca Deus, adorando-o no Bezerro de Ouro de nossos dias. Há Deus neste adorar?

Destes paradoxos e equívocos, nasce a Teologia da Prosperidade. Segundo outros pensadores, a Teologia da Retribuição, frutos do que se conhece como Confissão Positiva.

Assim como na dinâmica do mercado, a graça se limitaria ao comprometimento do crente. Há mais, para quem mais dedica. Quem mais oferece, retribui. Ledo engano! Como falamos acima, a graça se faz pela dinâmica redentora. Pelo encarnar-se, conviver entre os humanos e redimi-los pela paixão, morte e ressurreição. É na pessoa de Jesus que se encerra a redenção. Indiferente da relação material do crente com o templo. Tal certeza nos brota do texto do Evangelho de João, onde lemos: “(…) porque Deus de tal modo amou o mundo que nos deu seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê, tenha a Vida Eterna.” (Jo 3,16). É o crer em Jesus que encerra em si a dinâmica redentora. É a fé no Cristo, resultando na atenção aos imperativos do Evangelho, que nos faz partícipes de seu Mistério! Estes são: misericórdia, cuidado, comprometimento com a justiça. Temperando tudo isso com amor (cf. Jo 13, 34).

Para defender esses errôneos pensamentos, em sua maioria, seus teólogos se fazem valer de textos de interpretações fundamentalistas da Bíblia. Ausência completa de hermenêutica ou exegese.

Marcos 11,24:

“Por isso, vos digo que tudo quanto em oração pedirdes, crede que receberás e será assim convosco”. Esse versículo deve ser lido em equilíbrio com outro, que é 1Jo 5,14: “… esta é a confiança que temos para com ele, que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve.” João diz que Deus realmente dá o que se pede, contanto que seja a sua vontade. Deus não é nem o Papai Noel e, muito menos, o Gênio da Lâmpada (o qual chamava Aladim de “amo e senhor”). Não! Ele é o Senhor, e sua vontade soberana é que determina o que Ele dará ou não. A questão é que os defensores da teologia da prosperidade, da teologia da retribuição e da confissão positiva; dizem que sempre é vontade de Deus curar e dar riqueza, e citam como prova os demais textos que serão discutidos abaixo. O fato, contudo, é que a vontade de Deus é insondável, oculta em sua maior parte aos seres humanos. Ninguém, exceto por muita presunção, pode dizer que conhece a vontade de Deus em todos os casos. “Seus caminhos não são os nossos e seus pensamentos também não são os nossos” (cf. Is 55,8). Seus juízos e seus caminhos são inescrutáveis e insondáveis, como bem nos lembra São Paulo em Romanos 11.

Isaías 53,4, citado em Mateus 8,17 e 1Pedro 2,24:

Curou todos os que estavam doentes; para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças. … carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes curados.

Os “teólogos” da prosperidade e da confissão positiva dizem que a passagem de Isaías, citada de novo em Mateus e 1Pedro, provaria que Deus deve sempre curar, já que Cristo levou sobre si nossas dores e enfermidades.

Tenta-se, então, levar esse pensamento às suas consequências lógicas. Se Cristo levou todas as dores (o que é fato), e se as implicações plenas disso valessem para nós na presente era (o que questionamos aqui), não deveríamos sequer morrer, já que ele também levou sobre si a dor da morte.

Outra questão é que jamais deveria haver perseguição aos cristãos por causa do Evangelho, já que Jesus também levou essa dor sobre si. Ao contrário, a realidade da morte é reconhecida em toda a Bíblia como o curso normal da humanidade, maculada como é pelo pecado. Não somente isso, todo tipo de enfermidade deveria ser curada – no entanto, nunca se ouve relatos de curas de amputados, por exemplo. E, ainda que ouvissem – afinal Deus também é poderoso para curar esse tipo de mal – isso não provaria nada. Assim, essa interpretação de Isaías 53 dada pelos teólogos da prosperidade não se harmoniza com a realidade dos fatos. Nem nossa, enquanto Igreja, nem dos autores bíblicos.

Como se deve entender, então, o versículo de Isaías? Basta colocá-lo dentro do contexto de toda a Bíblia, o qual, diz que o homem foi expulso do Éden, e a Árvore da Vida ficou do “outro lado da porta”. Aqui fica claro que não defendemos fundamentalismos. Até que ponto é uma árvore literal ou simbólica não faz a menor diferença. Acontece que apenas em Apocalipse, na Nova Jerusalém, é que o homem terá novamente acesso àquela árvore que é “para a cura de todas as nações”. Até então, Deus disse que a terra produziria “cardos e abrolhos (metáfora para sofrimentos)”. É nesse mundo que vivemos e não há distinção entre crentes e incrédulos. Afinal, Deus manda a chuva sobre justos e injustos (cf. Mt 5,45). Na verdade, até o Segundo Testamento menciona doenças que não foram curadas milagrosamente, como o caso de Timóteo (cf. 5,23). Este recebeu do apóstolo Paulo o conselho de tomar vinho por causa das suas “frequentes enfermidades” no estômago.

Se o contexto de Is 53,4 só se aplicará plenamente na Nova Jerusalém, por que esse versículo é citado em Mateus, sendo cumprido aqui na terra? O que acontece, neste caso, é que os seres humanos tiveram um “aperitivo” dos efeitos de Isaías 53, quando Jesus esteve fisicamente aqui. É bíblico dizer que o Reino de Deus já chegou (cf. Mt 3,2), porém, ainda não na sua plenitude. Tanto é que, como já foi dito, nós ainda morremos, ainda pecamos, ainda sentimos dores, etc. Contudo, quando Jesus esteve fisicamente aqui, foi-nos possível provar um pouco dessa plenitude. Analisando bem, Jesus ressuscitou apenas umas duas ou três pessoas: quantos mortos haviam nos cemitérios judeus na época?

Vamos além: quantos enfermos haviam no tanque de Betesda, onde Jesus provavelmente só curou um? Por que só um? Para ser sinal de seu Mistério. E este é a Paixão. Se Ele não tivesse levado sobre si nossas dores, nenhuma cura teria sido realizada. Mas Ele não curou todos enfermos, tampouco ressuscitou todos os mortos. Isso só vai acontecer na segunda vinda, quando o Reino de Deus vier em sua plenitude. Foram sinais. Testemunhos da Verdade, da Realidade Messiânica. Jesus não veio como um curandeiro, um taumaturgo. Ele é Senhor, Salvador e Redentor.

João 14,12:

“Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai”.

O versículo acima tem sido citado para dizer que nós podemos e devemos fazer a mesma quantidade e os mesmos milagres que Jesus fez, portanto indo contra a tese de que a presença física de Jesus na terra foi um pré-cumprimento dos benefícios plenos de Is 53,4.

Entende-se, portanto, o que representam os milagres na história do cristianismo. Já o dizemos acima, reforcemos agora. Em 2Cor 12,12, Paulo deixa claro que os “sinais, prodígios e poderes miraculosos” eram suas “credenciais” como apóstolo. Em outras palavras, essas coisas distinguiam os cristãos comuns dos apóstolos, que eram aqueles que haviam recebido sua missão diretamente do Senhor e sobre o fundamento dos quais a Igreja estava edificada. Por outro lado, em 1Cor 12,28, Paulo também fala de dons de milagres e dons de curas, dados a pessoas que não eram apóstolos. Ainda assim, os dois versículos seguintes deixam claro que, assim como não eram todos os cristãos apóstolos, também não eram todos que possuíam esses dons. Tais dons existiam para a edificação da Igreja, mas não dados a todos os cristãos e nem têm a finalidade de lhes fazer as vontades. Nem antes, nem agora. Vale lembrar que eles foram e podem ser distribuídos conforme a soberania de Deus, que cura e realiza milagres quando quer. Nem mesmo Jesus curou todos os enfermos do seu tempo. Mas alguém pode dizer: “Jesus não curou todos aqueles que o buscaram corretamente?” Com certeza. Só que o ato de buscar a Jesus é algo que primeiramente o próprio Deus coloca no coração do homem, em sua soberania.

Voltando a João 14,12, o que significa “farão obras ainda maiores que as que faço”? Primeiro: Jesus não se refere necessariamente aos milagres, uma vez que não usou qualquer uma das três palavras gregas comumente usadas para designá-los no Segundo Testamento, traduzidas quase sempre como “sinais, prodígios e maravilhas”, como em 2Cor 12,12. Segundo: a interpretação mais sólida dessa frase é aquela que leva em conta que as “obras” de Jesus tinham e têm por finalidade fazer a vontade do Pai e proclamar o Reino de Deus.

João 10,10b:

“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. Os teólogos da prosperidade dizem que “vida em abundância” que Jesus veio para que se tenha, é uma vida de riqueza material e saúde. Será? O que pensariam disso os mártires, que, ao contrário da riqueza, ganharam, como “prêmio” pela sua fidelidade, o sacrifício da própria vida pelo Evangelho? O que pensaria disso aquele missionário que abandonou tudo para viver na África ou na Amazônia? Além: pegou malária e nunca ficou rico, mas – por outro lado – pregou o Evangelho para aqueles que nunca tinham ouvido falar em Jesus? O que pensaria disso aquela viúva pobre que deu as duas últimas moedas e que, pelo menos pelo relato bíblico, não consta que tenha ficado rica? O que pensaria disso aquela senhora pobre da Igreja que tem sempre a casa aberta para receber pessoas em necessidade e sempre tem uma palavra de consolo? O que pensaria Paulo, que passou por inúmeras situações desfavoráveis, até mesmo fome (cf. Fl 4,12)? Será que essas pessoas seriam consideradas como de “vida abundante” pelos teólogos da prosperidade? Por outro lado, será que eles consideram os ricos e poderosos do nosso mundo – incluindo assim – criminosos e vários políticos desonestos, como pessoas de “vida abundante”? Herdeiros da Graça de Deus?

Marcos 10,29 (e textos sinóticos: Mateus 19,29 e Lucas 18,29-30)

Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna.

Jesus disse esta mensagem para os discípulos. Não consta que Pedro e os demais, tenham se tornado milionários depois de abandonar tudo para seguir Jesus. Pelo contrário, a maioria deles se tornou mártir. Pedro, por exemplo, continuou vivendo como pescador. Ao fim, teve a “vida abundante” morrendo vítima de assassínio, mártir pelo nome de Jesus.

A verdade desta mensagem pode ser: se você abrir mão do que tem, vai ganhar uma nova família, vai pertencer à Igreja, ao corpo de Cristo, sua nova família, que representa 100 vezes mais mães, pais, filhos e casas. Outrossim, vai ganhar perseguições. Aliás, podemos nos perguntar, por que nenhum desses pregadores da prosperidade cumprem a primeira parte do versículo, que fala sobre abandonar tudo? Isso eles só recomendam para suas ovelhas, que abandonem tudo nas contas bancárias deles. Ou ainda – o que está um pouco antes, no versículo 21 – quando Jesus diz ao jovem rico que este deveria vender todos os seus bens e dar o dinheiro aos pobres? Sendo tais teólogos e ministros de Deus guiados por este pensamento, deveriam ser eles os primeiros a seguir os passos do jovem rico, em despojamento. Ao contrário, são dados ao acúmulo e exploração.

2Coríntios 8,9:

“ …pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos”. Citado fora do contexto, esse versículo parece indicar que Jesus se tornou pobre para que todos os cristãos se tornassem ricos.

Comecemos a ler o capítulo 8, no entanto, e se vê que Paulo elogia a Igreja dos macedônios, que era pobre, e exorta a Igreja dos coríntios, que era rica. A Igreja que era pobre era a mais generosa, o que já contraria a teoria de que ofertar é “semear bens materiais”. Uma vez que eles eram liberais e continuavam pobres, enquanto que a Igreja rica era amais avarenta. O paradoxo do axioma desta Teologia.

Poderíamos nos estender muito mais em citações. Esperamos ter elucidado a tendência dos teólogos da Prosperidade, da Retribuição e ou da Confissão Positiva; em entender as Escrituras de forma fundamentalista. Além: exime o Cristão da responsabilidade para com a Comunidade e o mundo. Faz-se presente – significativamente – a ideia de alienação com a vida fraterna, congregacional. O cristão deste pensamento vê a Igreja como mercado, ao qual se recorre em caso de necessidade. Vai à Igreja para tomar posse da benção. Não entende a Igreja como Povo de Deus que caminha, pela graça. Esta, a graça, é objeto de desejo e não consequência da relação íntima com Deus e a Comunidade.

Como a Teologia da Prosperidade, em sua lógica mercadológica, não articula a responsabilidade social do cristão, seus efeitos afetam o cotidiano das pessoas, principalmente, nas questões ligadas ao diálogo entre a fé e a vida. Resultando em pessoas alienadas ao seu meio. São confusos quanto à clareza do propósito de Deus para a humanidade, através da Igreja. Relativizando valores cristãos, produzindo uma geração de pessoas superficiais. Neste contexto de religioso, onde a graça se dá pela prosperidade, pelo belo; o feio é o antônimo antagônico da graça: Desgraça. Assim, os marginalizados, empobrecidos, excluídos; saem do plano de prediletos de Deus, para culpados por infidelidade. Ao contrário das mais pertinentes hermenêuticas Bíblicas, os pobres são resultado da não fidelidade. Castigo por não serem generosos com a obra de Deus e, consequentemente, amaldiçoados. Em consequência, os cristãos da prosperidade afastam-se destes ou, quando muito, exortam-nos a encontrar Jesus. Podemos também perceber a sintomática oposição destes cristãos aos mecanismos de justiça social, ou mesmo, ao pensamento religioso que os promove. Sendo estes ansiosos pela prosperidade, “fruto da graça de Deus”, se posicionam socialmente, politicamente e religiosamente neste caminho. Os religiosos desta teologia estão intimamente atrelados aos projetos de poder. Tornando-se opressores, por vezes. Tomando partido dos poderosos e aliando-se a todos os mecanismos de poder. Mesmo que estes não sejam concomitante com o caminhar cristão. Como dissemos, ao lado do poder está o belo, o rico, o conceito humano de prosperidade.

Uma teologia para os reis, para o opulentos. Fundamentando opressores, em detrimento de oprimidos. Deixando à margem os Lázaros, os Jós e – por que não? – o próprio Jesus.

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