Uma Catequese pela Paz

Por| Hermes Abreu

São muitos os discursos de ódio que presenciamos em nosso dias. O verbo odiar nunca foi tão conjugado, quanto em nossos tempos. Por razões políticas, por ideologias de castas e, pasma-se, até por questões religiosas. Odiar tomou-se a nova Vibe societatis.


Em Cristo, não deveria ser assim. Esta não é a vontade de Deus. Ele não nos impôs imperativo algum que nos impelisse ao ódio. Se não é a vontade de Deus que motiva e fundamenta esta dinâmica que presenciamos hoje, como e por que aderi-lo como caminho certo para a humanidade? Não. Está errado.

Se percorrermos nossos olhos nos ensinamentos da Sagrada Escritura, seremos edificados com a história de homens e mulheres valorosos, os quais, percebemos a dinâmica da paz como caminho de construção de uma sociedade que agrada o sonho de Deus. Podemos vislumbrar essa dinâmica nos livros de Tobias (Tobib na tradução TEB). Rute, entre tantos. Há também os Evangelhos que falam de amor, perdão, misericórdia. Desta feita, gostaríamos de desmitificar a posição de alguns religiosos que nos impõem um Deus da batalha e não da Paz. O mais celebrado de seus argumentos é que a História do Povo Hebreu foi construída pela espada. Haja vista a conquista da Terra Prometida pós-Moisés, por Josué. Sim, foi muito sangue derramado.

O Sangue derramado para a construção do Povo Hebreu, faz parte de um contexto histórico. Não foi ódio o fundamento motivador dos conflitos e sim, a necessidade da conquista da Terra que, segundo a Revelação, fora prometida desde a era dos patriarcas, e confirmada a Moisés em tempos de cativeiro egípcio. Podemos perceber essa dinâmica nos textos de Gn 12,2-3; Ex 3,1-4a; Ex 3,4b. Neste sentido, a violência na bíblia não se fundamenta em si, mas na necessidade de uma luta existencial. Face ao Povo Hebreu, estava a necessidade de sobrevivência, a liberdade da escravidão, entre tantas necessidades fundamentais à dignidade humana. Não se recorria à violência como mecanismo de imposição moral, massagem à autoestima, ou coisas mesquinhas que o valham. Era a sobrevivência de um povo que estava em jogo. Também, a Promessa de Javé.

Com a vinda do Messias anunciado por Isaías e outros profetas, a dinâmica muda. O Deus Elohin (אֱלוֹהִים , אלהים), traduzindo ao português como altíssimo, poderoso, majestade; precisou fazer-se como tal pela dinâmica que lhe converge. É neste contexto que se insere o Deus dos Exércitos ( אל הצבאות). Deus não é um assassino psicopata que mata por prazer, mas é libertador dos oprimidos.

Com Jesus, Deus se faz Misericórdia, Amor (1Jo 4, 8).

Considerando que somos Cristãos e, por assim dizer, herdeiros do Mistério de Cristo, nosso agir deve ser convergente a ele. As “guerras santas” do Primeiro Testamento devem dar lugar à misericórdia em exercício do anúncio da Nova Aliança. O “Olho por Olho” (código babilônico de Hamurábi, datado de 1770 antes de Cristo), dá lugar ao “Perdoar setenta vezes sete” (cf. Mt 5, 38-41). Em Mateus 5,38, Jesus começa citando a lei mais antiga que tenha existido – olho por olho e dente por dente. Esta lei se conhece com o nome latino Lex Talionis, e poderia descrever-lhe como lei da reciprocidade direta. Essa lei se transformou em parte da ética do Primeiro Testamento. Encontramo-la explicitamente pelo menos três vezes, ou seja: “Mas, se houver dano grave, então, darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe” (cf. Ex 21,23-25). “Se alguém causar defeito em seu próximo, como ele fez, assim lhe será feito: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará” (cf. Lv 24, 19, 20); “Não o olharás com piedade: vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé.” (cf. Dt 19, 21). Em contrapartida, Jesus vem inaugurar o paradoxo destes paradigmas. Se Jesus assim o quis, devemos nós trilharmos estas veredas. A Nova Aliança deve sobrepujar a Antiga. A Novidade de Jesus plenifica a Lei, considerando que o Coração Misericordioso de Deus supera a lógica humana, transcendendo a humanidade.

Ao seguidor de Cristo, deve estar a Paz como caminho. O amor como método. A humildade como dinâmica das relações (cf. Mt 5,9; Jo 15, 12-17; Lc 18,9-14). Enquanto seguidores de Cristo, sejamos semeadores de Paz, em tempos de conflito. Amando sempre, perdoando sempre, colocando-nos – sempre – ao lado dos pequeninos. Pois “é bonita demais a mão que carrega a bandeira da Paz”.

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