O desprezo ao ser humano e os riscos de uma sociedade doente

Por| Robson Ribeiro de Oliveira Castro

Não é novidade que o desrespeito ao semelhante tem se tornado algo corriqueiro em nossos dias. Nunca antes vimos tantas realidades de injustiça e abusos de autoridade como agora. Talvez isso se deva pelo acesso às informações e por estarmos, ou deveríamos estar, em isolamento social decorrente da pandemia da Covid-19. Algumas notícias nos assustam diante de um cenário de desprezo e falta de ética, entretanto nos chama a atenção devido à forma que o ser humano tem sido tratado e trata o seu próximo.

Diante disso gostaria de chamar a atenção para uma frase: “Você sabe com quem você está falando?” Neste pequeno texto apresentarei quatro desdobramentos desta frase em realidades distintas, que nos descortinam uma sociedade doente e a falta de carinho e empatia para com o próximo.

A primeira delas é de um empresário que aparece discutindo com um Policial Militar que atendeu à denúncia de sua esposa sobre o estado de descontrole e agressividade do marido após ter ingerir bebida alcoólica. A frase, que é bem mais ampla, termina com a seguinte afirmação: “Você (policial)… É um merda de um PM que ganha R$ 1 mil por mês, eu ganho R$ 300 mil por mês. (…) Aqui é Alphaville, mano.”. A afirmação é desumana e dá a entender que no condomínio, de grandes e luxuosas casas, a polícia não teria poder. Seria mesmo a condição única o poder econômico  o divisor de águas da sociedade?

A segunda frase vem do Rio de Janeiro, onde um casal discutiu com um fiscal da Vigilância Sanitária que, no exercício da sua função, fazendo cumprir o decreto de distanciamento após a abertura dos bares e restaurantes, além de desacatá-lo e menosprezá-lo, o desrespeitou ao afirmar que: “A gente paga você, filho. O seu salário sai do meu bolso”. O funcionário de fiscalização pede ao casal que observem a situação e, de forma respeitosa, chama o homem que está gravando a operação de “cidadão”, no mesmo instante é interrompido pela mulher que retruca: “Cidadão, não. Engenheiro civil, formado. Melhor do que você”. Infelizmente, a falta de cuidado para com o próximo no exercício do seu trabalho, além se colocar em risco por causa da pandemia, deixa claro a arrogância do ser humano. A título de curiosidade, o fiscal da Vigilância Sanitária é extremamente qualificado para o cargo que ocupa sendo Doutor em Ciências Veterinárias pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o que não justificaria, mesmo este não tendo uma titulação, em momento algum a falta de cuidado com o próximo e o desrespeito.

A terceira frase é a do desembargador Eduardo Siqueira, que foi abordado pela Guarda Civil na orla da praia de Santos, não acatando o pedido para que colocasse a máscara, desobedecendo a um decreto sobre a utilização da máscara. Além disso, humilhou o agente ao fazer uma ligação para o Secretário de Segurança do município, afirmando: “Estou aqui com um analfabeto que quer me obrigar a usar a máscara na rua”. No final, ainda rasga a multa que lhe foi aplicada, jogando-a em via pública. Qual seria o motivo da raiva em cada um dos casos: a Lei!

A mais recente é de um morador de um condomínio de luxo que destratou e menosprezou um trabalhador de entrega de comida por aplicativo: “Moleque, escuta aqui, você tem inveja dessas famílias aqui, você tem inveja disso aqui [aponta para a cor da pele]. (…) Seu lixo, quanto deve ganhar por mês, hein? Dois mil reais? Não deve ter nem onde morar”. Atitudes assim nos mostram o desprezo do ser humano pelo próximo e o desrespeito por aquele que se arrisca ao sair para trabalhar todos os dias. Felizmente não podemos generalizar, mas a forma como a elite se comporta diante da lei e da necessidade de cumpri-la nos surpreende e nos leva a refletir: Será que estamos atentos ao clamor do próximo e à real necessidade de atentar aos seus pedidos e anseios?

Em todos os casos, a frase poderia ser antecedida por uma simples sentença: “Você sabe com quem você está falando?” Esta frase perpassa diversos cenários, mas que nos apresenta uma competição desenfreada e antiética. Independente de quem falou e com quem falou, demonstra que a sociedade está fadada ao fracasso nas relações humanasse se não houver uma preocupação urgente em se fazer o bem a todos e, acima de tudo, o respeito pelo lugar do próximo, além de uma total falta de bom senso e respeito para os servidores que atuam na linha de frente.

Esta realidade, infelizmente, está mais próxima do que imaginamos e casos semelhantes a esses são corriqueiros e mostram que o indivíduo tem o potencial de fazer o bem e o mal. Em época de pandemia e de isolamento social, os casos apresentados nos descortinam situações ligadas diretamente à realidade vivida por muitos funcionários que necessitam trabalhar para que seja mantida a ordem. Diante do isolamento social, atitudes como essas não colaboram em nada para que possamos viver em uma sociedade mais igualitária, com respeito, amor e principalmente comprometimento com o próximo.

Infelizmente, as pessoas não entenderam o que é ter uma posição social ou ter um poder econômico. O exemplo de Jesus é sempre recorrente ao nos apresentar a sua humanidade. Ele mesmo disse que “O que fizeste ao menor dos meus irmãos, é a mim que o fizestes” (cf. Mt 25,40). A forma como ele tratou seus semelhantes, viveu ao lado de cobradores de impostos e de uma classe social que era desprovida de bens e cargos, mostra que não era um Rei de Palácios, mas queria estar nas casas, com o seu povo, vivendo com ele, comendo com ele e escutando suas realidades.

O teólogo basco José Antonio Pagola, em seu artigo “A vida é mais do que o que se vê” nos fala que: “Jesus teve que ensinar a seus discípulos a captar a presença salvadora de Deus (…). Ele revelou a eles sua grande convicção: a vida é mais do que se vê. Enquanto vivemos de maneira distraída, sem captar nada de especial, algo misterioso está acontecendo no profundo da vida em segredo”.

Desta forma, aos que compactuam com determinadas formas de tratar o próximo como nos cenários descritos, devemos observar que: humilhar, desprezar, desdenhar, menosprezar, depreciar o próximo só corrobora para um caminho de atitudes vis do ser humano, tornando-o o pior dos animais.

Ter um cargo, ocupar um status social, ou ser algum representante legal da sociedade ou do poder judiciário, só faz sentido se eu fizer o possível para o bem do próximo e não o meu próprio.

É a partir desta concepção que devemos observar  o que temos de bom e como tratar o outro, como ser amigo e acolhedor em momentos e dor e perda como o que vivemos agora com a pandemia da Covid-19 que, no Brasil, já passou dos 107.000 mortos.

Jesus deve ser nosso exemplo a ser seguido pela sua ética, termo deriva do grego ethos que significa comportamento, costumes, hábito, caráter, modo de ser de uma pessoa. Jesus assumiu seu modo de ser mesmo em uma sociedade contrária a tudo que ele pregava. Ele veio transformar o mundo na sociedade de sua época, desejava fazê-la refletir sobre uma conduta nova e mudar seu posicionamento frente ao legalismo exacerbado. Assim, tratar o próximo com respeito é fazer valer os mandamentos de Deus frente à realidade vivida.

Destarte, é preciso cultivar o caminho ético e que a nossa conduta moral seja pautada pelas regras aplicadas no cotidiano e que devem ser respeitadas por cada um, principalmente, neste período de distanciamento e isolamento social.

Jesus não usou a frase: “Você sabe com quem esta falando”, pois ele sabia que, diante do que via e vivia,  deveria prevalecer o amor para com o próximo, a chave para uma sociedade mais justa e atenta ao calor dos mais fragilizados e necessitados.


Robson Ribeiro de Oliveira Castro  é leigo, casado, pai da Emília e do Francisco. Mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Atualmente leciona no Instituto Teológico Franciscano (ITF). E-mail: robsonrcastro@yahoo.com.br.

Fonte: franciscanos.org.br

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