Amor de Papel Machê

Por| Hermes de Abreu Fernandes

Acaba sempre. Quantos são os que adentram aos portais de nossas igrejas jurando amor, respeito, fidelidade; até que a morte os separe? Nada utópico nestas fórmulas sacramentais. Foi uma Verdade defendida pelo próprio Jesus. “Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne.”(Mt 19, 5). Mais à frente, vai dizer: “Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar.” (Mt 19,6b). E separam. Raros são aqueles que se unem por toda vida. O ardor que motiva a união dos nubentes, acaba. Fica absoleto. A Verdade que os uniu, torma-se mentira ao se viver. Pena!

No repetir dos dias, muitos casais se sentem cansados da convivência. Alegam que a relação caiu na rotina. Qual o problema da rotina? Não poderia ser entendida de outra forma? Poderíamos chamar a vilã rotina da bemfazeja estabilidade. Viver em uma montanha russa de sentimentos e ações pode ser emocionante. No nível lúdico, sim. Na vida, nem tanto. Do mesmo princípio que buscamos empregos estáveis, prédios sólidos, veículos seguros; podemos entender as relações. Que sejam estáveis! Sólidas. Mesmo que, erroneamente, entendamos como rotina. Seremos lembrados como “o homem sensato que construiu sua casa sobre a rocha” (Mt 7,24).

Vamos pensar um pouco no mútuo conhecimento. Vivendo o cotidiano, nossas limitações humanas vêm à tona. São nos “pegues e pagues” da vida que se faz o conhecer de si e do outro. Aquele sorriso dos noivos, no dia de seu enlace, ofusca-se pelos pequenos e grandes defeitos do conviver. Fica a pergunta: acaba o amor? Queremos degustar as delícias da vida, sem que participemos do plantio e do cuidado. Somos todos limitados. Nossas manias, nossos humores instáveis, nossas dificuldades de conciliar o querer com o ser. Sem falar dos pseudoprojetos que incutimos em nosso ser, esquecendo de que minha escolha afeta o outro. Logo se vem sentimentos de liberdade tolhida, de sentir-se sufocados no relacionamento a dois. Mais uma vez, se perde o ponto de partida. O sentido do sim ao contrair-se os laços do matrimônio.

O tempo, este mestre! Ensina. Quebra barreiras, desfaz primeiras impressões. Em parte, os matrimônios se desfazem por não se precaver, ou conceber superficialmente, as lutas do dia a dia. Amor não é algo passivo à finitude. Quando edificado sobre a rocha, a vida a dois sobrevive às intempéries (cf. Mt 7,24-27).

Vem-me à memória agora trabalhos artesanais de papel machê. Verdadeiras obras de arte dignas de exposição. Outrossim, se avaliarmos sua construção, veremos, entre seus componentes, papel. Muitas vezes, reciclado. Descartado. A beleza que se faz do lixo. Nossas relações também podem ser vistas assim. Sob este deslumbramento.

Tenho uma imagem de São Francisco de Assis diante de mim, em minha mesa de trabalho. Feita deste método. Papel machê. Entre cola e gesso, jornal velho. O que era lixo da superficialidade, do imediatismo humano, tornou-se arte. Votiva, externando fé. Em nossas relações, as arestas existenciais, as limitações do humano; podem ser trabalhadas, com divina criatividade, chegando à beleza. É desta dinâmica que se constroem as relações para a toda vida. Fazendo de nossa pequenez, grandeza. De nossas feiuras, beleza.

Aos que deram seu sim ao matrimônio, fica esta catequese. Como quase tudo que existe, para o bem da vida humana; as relações – também – devem ser recicladas. Aquela incompatibilidade deve ser entendida como riqueza na diversidade. A dor, entendida como formação.

O amor pode ser imortal. Como uma plantinha, com devido cuidado, pode viver até à fossilidade; o amor pode ser para toda vida. Não sendo encarado com superficialidade, pode deixar de ser somente parte da vida; tornando-se razão para uma vida.

E quando bater aquele sentimento de rotina, lembremos que pode ser entendido como estabilidade, segurança. Quando brotar sentimento de anular-se, pensemos que podemos nos reinventar. Quando pensarmos que é o fim, lembremos da semente. Se não morrer, frutos não pode dar. O matrimônio deve ser reinventado a cada dia. O amor reciclado, como a beleza da arte em papel machê.

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