A importância da figura do pai numa sociedade sem pai

Por| Leonardo Boff

Celebramos  nesse domingo,09/08, o dia dos pais. É dia de amor e de reflexão.Vivemos numa sociedade sem pai ou do pai ausente. Num certo sentido, o pai foi expulso da família na medida em que foi impedido de realizar suas funções paternas. Seja porque o regime de trabalho da sociedade industrial e do conhecimento o ocupa fisica e mentalmente de forma tão intensa que lhe resta pouco tempo para conviver com a esposa e os filhos/filhas. Seja porque seu papel foi demolido pela crítica à autoridade do pai, por certo tipo de feminismo radical, sem medir as consequências.

O certo é que vivemos num tempo de eclipse da figura tradicional do pai. O que substituiu a sociedade patriarcal foi a sociedade da Grande Mãe, hoje imperante. Ela cumpre as funções da mãe: satisfazer as necessidades dos cidadãos, cuidar da saúde, educação, conservar o existente, eliminar riscos, garantir a fluidez na sociedade.

Esta situação colocou em xeque a identidade do pai que anteriormente desempenhava a função do grande pai provedor. Ele se vê agora deslocado e, quando então desempregado, e são milhões, se sente desmoralizado e até insultado.

O enfraquecimento da figura do pai, desestabilizou a família. Os divórcios aumentaram de tal forma que surgiu uma verdadeira sociedade de famílias rompidas e de divorciados.

As consequências para os filhos/filhas são, não raro, dramáticas. Estatísticas oficiais oferecem um quadro lastimável: mais da metade  dos filhos fugidos de casa ou sem  moradia fixa ou entrando na criminalidade, são de famílias sem pai.

A ausência da figura do pai é, por todos os títulos,  inaceitável. Ela desestrutura os filhos/filhas, tira o rumo da vida, debilita a vontade de assumir um projeto e mutila a sociedade como se lhe faltasse um órgão importante como um olho ou um braço.

É  de fundamental importância, fazer a distinção entre  os modelos de pai e o princípio antropológico/psicológico do pai. Esta  distinção nos ajuda a evitar mal-entendidos e a resgatar o valor inalienável e permanente da figura do pai.

A tradição psicanalítica tirou a limpo a importância insubstituível do princípio antropológico/psicológico da mãe (Jung) e respectivamente o princípio antropológico/psicológico do pai (Freud) na constituição e evolução da pessoa humana. Agora focalizamos a figura do pai que hoje celebramos.

Este é responsável pela primeira e necessária ruptura da intimidade mãe-filho/filha e a introdução do filho/filha num outro continente, o transpessoal, do pai, dos irmãos/irmãs, dos avós, dos parentes e de outros da sociedade.

Na ordem  transpessoal e social, vige a ordem, a disciplina, o direito, o dever, a autoridade e os limites que devem valer entre um grupo e outro. Aqui as pessoas trabalham e realizam seus projetos Em razão disso, devem mostrar segurança, ter coragem e disposição de fazer sacrifícios, seja para superar dificuldades, seja para vencer.

Ora, o pai é o arquétipo e a personificação simbólica destas atitudes. É a ponte para o mundo transpessoal e social. A criança, ao entrar nesse novo mundo, deve poder orientar-se por alguém. Esse alguém é o pai que comparece como  herói, como aquele que tudo sabe, tudo pode, tudo faz. Se lhe faltar essa referência, a criança se sente insegura, perdida, sem capacidade de iniciativa.

É neste momento que se instaura um processo de fundamental importância para a psiqué da criança com consequências para toda vida: o reconhecimento da autoridade e a aceitação do limite que se adquire através da figura do pai.

A criança vem da experiência da mãe, do aconchego, da satisfação dos seus desejos, do calor da intimidade onde tudo é seguro. Agora, tem que aprender algo novo: que este novo mundo não prolonga simplesmente a mãe; que nele, há conflitos e limites. É o pai que introduz a criança no reconhecimento desta dimensão. Compete ao pai ensinar ao filho/filha o significado dos limites e o valor da autoridade, sem os quais ele não ingressa na sociedade sem  traumas.

Pertence ao pai fazer compreender ao filho/a que a vida não é só aconchego, mas também trabalho, que não é só bondade mas também conflito, que não há apenas sucesso mas também fracasso, que não há tamsomente ganhos mas também perdas. Se a mãe tende a realizar os desejos do filho/filha, se os programas dr televisão exacerbam o desejo, fazendo crer que só o céu é o limite, cabe ao pai mostrar que em tudo há limite e conveniência, que todos somos seres de implenitude, limitação e mortalidade, mesmo que o filho/filha o considere chato e insuportável.

Operar esta verdadeira pedagogia desconfortável mas vital é atender ao chamado do princípio antropológico do pai. Se não assumir esta missão/função simbólica e arquetípica, o pai concreto está prejudicando pesadamente seu filho/filha pelo resto da vida.

Uma sociedade que, ao criticar sistematicamente um modelo de pai, o patriarcal, tiver atingido, com uma crítica sem discernimento, o princípio antropológico/psicológico paterno, começa a perder rumo, vê crescer a violência, assiste à demolição da autoridade e deixa imperar a falta de limite nas relações sociais. Ela é condenada à volta do pai, mas agora na forma pervertida do autoritarismo. É o que estamos vivendo e o sofrendo no Brasil. Um pai autoritário,feito presidente, gerou filhos piores que ele sem qualquer sentido dos limites nas palavras e nos atos.

O que ocorre quando o pai está ausente na família ou há uma família apenas materna? Os filhos parecem mutilados, pois se mostram inseguros e incapazes de definir um projeto de vida. Alguma coisa está quebrada dentro deles, pois falta o complemento do pai.

Retenhamos essa ideia: uma coisa é o princípio antropológico/psicológico do pai, uma estrutura permanente, fundamental no processo de individuação de cada um. Esta função personalizadora não está condenada a desaparecer. Ela continua e continuará a ser internalizada pelos filhos e filhas como uma matriz na formação sadia da personalidade. Eles a reclamam.

Outra coisa são os modelos historico-sociais que concretizaram o princípio antropológico/psicológico do pai. Eles são sempre cambiantes.No mundo rural normalmente predomina o pai patriarcal. No urbano, o pai companheiro e amigo.

Os modelos são sempre diferentes. Mas neles todos age o princípio antropológico/psicológico do pai, sem que este, entretanto,  se exaura em nenhum destes modelos. Mas todos participam das limitações humanas, com erros e acertos, que devem ser compreendidas.

Importa também reconhecer que, por todas as partes, surgem figuras concretas de pais que se imunizaram da impregnação patriarcal e na sociedade emergente mostram responsabilidade e determinação e desta forma cumprem a missão/ função arquetípica de pais para com os filhos e filhas, função indispensável para que eles amadureçam e, sem perplexidades e traumatismos, ingressem na vida autônoma, até serem pais e mães de si mesmos.

Leonardo é teólogo e filósofo e escreveu:São José, a personificação do Pai. Vozes 2012.

In: https://leonardoboff.org

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