14º Domingo do Tempo Comum

Por Ir. Rita Maria Gomes

A acolhida do rei justo e humilde

I. Introdução geral

No 13º domingo do Tempo Comum, anterior a este, a liturgia aborda a questão da acolhida dos enviados de Deus. No Evangelho daquele domingo, Jesus diz que “quem recebe um profeta, recebe a recompensa de profeta, e quem recebe um justo, recebe a recompensa de justo” (Mt 10,41). Na liturgia deste 14º domingo, a mesma questão é vista de outro ângulo, com um acento maior na imagem do justo e humilde. O ponto de partida já não é a figura clássica do profeta, mas a do rei justo e humilde do relato profético de Zacarias. Essa mesma imagem servirá para pensar a vida dos cristãos, segundo o espírito e o discurso de Jesus no Evangelho. Só depois disso podemos entender o canto do salmista: “Bendirei eternamente vosso nome, ó Senhor” (Sl 114).

II. Comentários dos textos bíblicos

1. Evangelho (Mt 11,25-30)

As palavras de Jesus, nesse trecho do Evangelho, parecem um tanto enigmáticas. Afinal, quais são as coisas que o Senhor “escondeu aos sábios e entendidos” e revelou aos pequeninos? A chave para compreender essa estranha palavra de Jesus se encontra nos textos anteriores a este, pois Jesus falava antes da condição de João Batista como profeta e precursor, e das reações ao ministério de João e ao seu próprio. Aqueles que, diante da vida austera de João, o julgaram endemoninhado – embora fosse reconhecidamente profeta – porque não comia nem bebia também se voltam contra Jesus, pelo motivo oposto, e o chamam de “comilão e beberrão” (Mt 11,18-19). A mesma ideia foi expressa na imagem das crianças que, sentadas na praça, não dançam quando há música e não choram quando são cantadas canções de luto (v. 16-17).

Além disso, o texto contrasta com as invectivas contra as cidades da Galileia, para onde, após seu discurso missionário (Mt 10), Jesus partiu a fim de ensinar e anunciar a Boa-nova do Reino (Mt 11,1). A censura a essas cidades se dá pelo fato de não se arrependerem, apesar de Jesus ter realizado ali a maior parte de seus milagres (v. 20). Há uma resistência a acolher os enviados de Deus. Há certo embotamento da mente para reconhecer neles a qualidade de enviados de Deus. É disso que Jesus fala quando diz que o Senhor escondeu “estas coisas” aos sábios e entendidos. Aos que assim se consideravam, não restava nada a aprender, a conhecer. Para os pequeninos, tudo é motivo de alegria e aprendizado. Só Jesus conhece inteiramente o Pai; portanto, só ele é capaz de revelar o próprio Deus e seus planos, pois Deus não pensa nem age como os humanos.

2. I leitura (Zc 9,9-10)

A primeira leitura traz o convite à alegria dos tempos messiânicos: “Exulta, cidade de Sião; rejubila, cidade de Jerusalém” (v. 9). Após o convite à alegria, à festa, vem a razão para essa alegria: a chegada do rei. Não de qualquer rei, porém. O rei esperado é justo, é salvador, é humilde e pacífico.

A imagem de um rei montado num jumento não é, primeiramente, referência à humildade, e sim à pacificidade, já que os “carros e cavalos” evocam o poderio bélico e guerreiro de alguns impérios. O texto do profeta Zacarias, contudo, vai além e diz que esse rei vai eliminar “os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém” (v. 10). Ele traz a paz, a prática da não guerra, ao interior mesmo da cidade sagrada. Após instaurar a paz em Jerusalém, também anunciará a paz às outras nações e seu domínio abarcará todo o mundo conhecido.

O profeta traça uma imagem de rei desconcertante. Um rei que não combate com carros e cavalos, que não se veste luxuosamente, que é justo em seu agir e julgar e – talvez a característica mais específica – que é salvador. Esse rei não é apenas uma antítese dos reis conhecidos até então, mas é a expressão do monarca divino.

3. II leitura (Rm 8,9.11-13)

A segunda leitura, tirada da carta aos Romanos, liga-se à primeira e ao Evangelho pela noção de receber, acolher uma vida que não se ajusta bem com a perspectiva terrena de então. Isso vem expresso, no texto, pela contraposição entre “vida segundo a carne” e “vida segundo o Espírito”. Só uma vida vivida segundo o Espírito de Deus é realmente vida. E esta nos é assegurada pela união espiritual com Jesus Cristo.

III. Pistas para reflexão

Uma primeira consideração a ser tecida tem a ver com a noção de acolhida que perpassa as três leituras: na primeira, como convite a festejar a chegada do rei; na segunda, como convite a aceitar o Espírito de Cristo como o guia de nossa existência; e, no Evangelho, como convite a acolher o “jugo” do rei humilde e manso de coração. O jugo suave de Jesus se contrapõe aos “fardos pesados e insuportáveis” que os escribas e fariseus de seu tempo impunham aos homens (Mt 23,4). Seu jugo consiste em sua interpretação e aplicação da Lei e, sobretudo, na sua capacidade de relacionar-se com Deus como Pai. Viver sob o jugo de um rei pacífico, manso, humilde não é um fardo pesado.

Uma segunda consideração tem relação com a imagem de um rei montado num jumento. Todos nós conhecemos o texto tradicional da aproximação de Jesus a Jerusalém montado num jumentinho e sendo aclamado pela multidão para, em seguida, ser rejeitado e morto em Jerusalém. Seria natural que aqui se fizesse referência a essa leitura neotestamentária, mas isso não ocorre.

A razão disso é que a liturgia deste domingo quer acentuar não a figura de Jesus, rei manso e humilde, e sim a reação da Igreja ao seu Senhor que vem.

Em toda a liturgia, o foco está na possibilidade de recusa ou de acolhida do enviado de Deus, Jesus Cristo, e de seu projeto de salvação para a humanidade. O Evangelho deste domingo tem um caráter de censura aos que endurecem o coração e não conseguem entender, perceber e reconhecer a revelação divina. Ao mesmo tempo, apresenta, em forma de prece, revelação e convite, um apelo a aproximar-se de Jesus, o rei justo, manso e humilde de coração, que tomou como projeto viver como filho de Deus.

Ir. Rita Maria Gomes

é natural do Ceará, onde fez seus estudos de Filosofia no Instituto Teológico e Pastoral do Ceará (Itep), atual Faculdade Católica de Fortaleza. Possui graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde lecionou Sagrada Escritura. Atualmente é professora na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). É membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém, que tem como carisma o estudo e o ensino da Sagrada Escritura.

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