Tempo Sombrio

Por| Alexandre Aragão de Albuquerque

Depois da goiabeira, episódio no qual a ministra Damares afirma ter conversado pessoalmente com Jesus, e o do filho Zero Três de Bolsonaro em justificar seu pleito para embaixada dos EUA pelo simples fato de haver fritado hambúrgueres quando de sua passagem por aquele país, a mais nova revelação xucra do governo recaiu na pasta da Saúde onde o titular general Pazzuelo presenteou a comunidade mundial, em sua análise sobre a pandemia do corona vírus, com a afirmação a qual o Nordeste brasileiro integra o ciclo climático do hemisfério norte. De fato, enquanto no início do mês de janeiro deste ano os termômetros apontavam uma temperatura média de 02 graus Celsius em Nova Iorque (EUA), em Teresina – PI a temperatura média foi de 32 graus Celsius. Minhas duas netas de oito anos apreensivas ligaram para mim para conferir a veracidade da desinformação do ministro do Brasil, afinal vão fazer prova de geografia nesta semana cujo tema é o clima mundial.

Para Blaise Pascal (1623-1662), matemático francês, famoso pela frase “o coração tem suas razões que a própria razão desconhece”, o humano é um nada, do ponto de vista do universo infinito; mas é um tudo, do ponto de vista do nada. Assim, torna-se impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tampouco é impossível conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes.

Com a queda do Muro de Berlim e a subida ao pódio do Pensamento Único com seu tempo exclusivo de curtíssimos prazos dos Mercados Financeiros, ávidos pelo ganho imediato e contínuo, pela especulação desmedida, pela cultura do descartável, acelerou-se a construção de novos muros de hostilidade, exclusão e indiferenças a populações inteiras no seio das sociedades. E diante das catástrofes provocadas pelo neoliberalismo financeiro, ocorre uma triagem estrutural na salvação entre “pessoas boas” e “pessoas más”: aquelas estimadas pelo sistema são salvas, aquelas que não as consideramos são abandonadas à própria sorte. Nisso residem as razões das reformas de previdência e trabalhista, retirando direitos históricos da classe trabalhadora em prol do capital mundial. Como também no caso no qual o presidente Bolsonaro, diante dos mortos brasileiros pela covid-19, haver respondido: “E daí? Eu não sou coveiro!”. Ainda, no Excludente de Ilicitude de Sérgio Moro autorizando os policias com sua “licença para matar”.

Jérôme Bindè (1951- hoje), em artigo intitulado “Complexidade e Crise de Representação”, chama atenção para o fato de “a realidade do nós só ter sentido se todos e cada um esperarem um futuro digno; o nós só pode se fundar na solidariedade intelectual e moral da humanidade”. Bindè destaca que o tempo da história é aquele da profecia e da projeção para o anúncio de um novo mundo. Todavia, no presente, o tempo está dividido pela disparidade das riquezas entre nações, e no interior destas: uns poucos concentrando quase tudo, com uma multidão concentrando nada.

É preciso reformular o pensamento para refazer a ação. É preciso reaprender a viver junto solidariamente, educando o olhar crítico para as causas que alimentam o sofrimento daqueles que nada ou pouca coisa possuem. A reformulação da participação política implica uma reformulação do pensamento para a construção de uma democracia cognitiva capaz de pensar novos projetos de vida comum, baseados na justiça distributiva. As ameaças da emergência de novas ditaduras em todo mundo, sustentadas pelo capital, com seus discursos populistas de defesa de democracias enfraquecidas, vêm somente beneficiar grupos sociais e étnicos previamente determinados. A ética do tempo não é somente a tomada de consciência da responsabilidade em relação às gerações futuras. Trata-se também de uma tomada de posição visando à educação para a vida na cidade e para a civilidade. A primeira defesa da democracia, o melhor fermento para uma cultura de paz, é a existência de cidadãos formados para uma cidadania responsável. O que, infelizmente, não vemos ocorrer nas atitudes públicas do presidente da República do Brasil, apoiando atos que sustentam o fechamento do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e o retorno de uma Ditadura Militar com o AI-5.

O vídeo que circulou na semana passada do encontro, nada republicano, entre padres e leigos empresários midiáticos católicos com Bolsonaro, oferecendo-lhe uma mídia positiva de apoio irrestrito em troca de investimentos em suas redes de televisão, vem atestar o tempo sombrio em que vivemos, onde fascismo e cristianismo se dão as mãos, anunciando uma incivilidade com proporções imprevisíveis, haja vista tudo aquilo que já foi proferido por Bolsonaro em sua trajetória política, pelo seu pensamento armamentista, submisso aos EUA, intolerante com o pensamento pluralista, ameaçador da liberdade de expressão e de Imprensa, preconceituoso com a diversidade religiosa, misógino, homofóbico e racista.

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