Sobre TVs católicas e mercado

Por| Hermes Abreu

Uma manchete. Sem preâmbulo, sem piedade. Afirma, como todas manchetes, sem explicar. Para incitar à curiosidade, esbraveja: “Ala da Igreja Católica oferece a Bosonaro apoio em troca de verba”.

Ala da Igreja Católica? Que Igreja a notícia se refere? A que se faz representar pela CNBB, com seu magistério e diretrizes pastorais? Aos padres, irmãos e irmãs de vida consagrada, leigos comprometidos com o sofrimento do Povo de Deus, se doando – sem medidas – nas periferias existenciais? Aos irmãos e irmãs que se reúnem para partilhar a Palavra de Deus, a Eucaristia, em sinal profético e missionário, anunciando o Reino de Deus? Certos estamos que não.

A notícia se refere à teimosa e infrutífera tentativa da Igreja midiática de Evangelizar. Mantida insistentemente por sacerdotes e leigos que acreditam em um mundo artificial de imagens, frames, estatística de audiência. A mensagem pode se inspirar no Evangelho, mas a pedagogia é o mercado. Pergunte aos sacerdotes presentes nessas TVs de inspiração católica quando estiveram focados e inspirados pelas diretrizes de Evangelização? Digo inspiração católica, retirando o sentido primário do termo comunhão. Esta Igreja midiática nada tem do sonho do Papa Francisco de uma Igreja em Saída. Nem mesmo das diretrizes da CNBB. Estão sob as câmeras e holofotes, mas longe dos altares. Altar dos pobres, altar de Jesus. Sem contar o contraproducente testemunho. Se entendemos que Igreja é povo de Deus a caminho, qual caminhar se dá diante das telas de TV, computador, smartphones? Estes que dizem evangelizar pelos meios de comunicação nada fazem pela comunhão. São, como o é todo entretenimento, ficção. A Igreja é afeto. Olho no olho, coração no coração. “Onde dois ou mais estiverem reunidos, eu estarei no meio deles” (Mt 18,20). Como podemos estar reunidos, enquanto corpo místico de Jesus, Igreja militante, em nossos assentos domiciliares? Sem construir fraternidade, comunidade, Igreja – em seu profundo sentido de eclesialidade?

Não! Nenhuma ala da Igreja ofereceu apoio a Bolsonaro. Quem o fez foram homens e mulheres comprometidos com sua ânsia pelos índices de audiência e reclames. Estes, com toda vilanidade do mercado, se dão pelo lucro.

Que não se fale mais em Ala da Igreja. Que se fale empresários da mídia que oferecem conteúdos religiosos. Estes não estão com o Papa, nem mesmo com a CNBB. Assim, caminham sozinhos, trôpegos, quiçá, cegos pela ganância e corrupção. A Igreja de Jesus, antes nas catacumbas, hoje reside nas periferias existenciais. Periferias estas que, sequer, são apresentadas nestes meios de comunicação. Neles, Jesus pobre e crucificado nos sofredores, não tem lugar.

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