Estudo sobre a carta de S. Paulo a Filêmon

Por|  Frei André Luiz do Nascimento de Souza, ofm*

RESUMO

O presente artigo fará uma análise panorâmica da carta de Paulo a Filêmon. Examinar-se-ão algumas questões introdutórias, tais como: autoria, data, cenário, etc., e também o conteúdo e teologia da carta. O objetivo da pesquisa é trazer à luz, à medida que a investigação se desenrola, as contribuições e implicações desta pequena epístola aos cristãos hodiernos.

Palavras-chave: Onésimo. Filêmon. Escravidão. Evangelho. Intercessão. Amor.

  1. CONTEXTO DA CARTA A FILÊMON

A carta de São Paulo à Filêmon é a mais curta das cartas paulinas e do Novo Testamento com apenas 25 versículos. Não existem dúvida sobre a identidade dos destinatários, pois Paulo escreve para Filêmon como nos indica o v. 1. Diversos estudos concordam ao apontar que a carta foi escrita quando o Apostolo se encontrava detido na prisão domiciliar, neste mesmo período segundo a Bíblia Vozes estava a redigir a epístola aos Cl (cf. 4,7-14: Fm 23s). A circunstância da redação desta carta é a devolução de Onésimo, com a ideia de que seja libertado de sua situação de escravidão (vv. 15-17). Onésimo foi gerado, convertido no mesmo cárcere que se encontrava Paulo (v.10), consequentemente, se colocou à disposição dele por algum tempo (vv. 11-13), ele entendeu que deveria regularizar a sua situação (cf. BOSCH, 2002, p. 335).

As circunstâncias da carta, possibilitou levantar certos questionamentos que não são respondidos. Por que Onésimo deixou a casa de Filêmon? Como escravo fugitivo ou por que foi enviado pelo mesmo Filêmon? Paulo o encaminha para seu mestre para que ele seja bem-acolhido na volta para casa ou para ser libertado da escravidão? Ainda mais densas são as perguntas sobre a localização da Igreja doméstica de Filêmon: Se estaria em Colossos, como parecem demonstrar as convergências sobre os nomes dos destinatários com os de Colossenses, por que nesta última falta, justamente, o nome de Filêmon? E em que sentido o mestre de Onésimo é devedor de Paulo, se ele parece nunca ter estado em Colossos (cf. PITTA, 2019, p. 249)? Essas indagações continuam sendo insolúveis. Todavia, o Apostolo traz uma novidade, na relação sobre escravos e senhores, chamados a participar na comunhão de fé em Cristo Jesus.

Quanto à datação da composição e o lugar onde escreveu é incerta para alguns pesquisadores, entretanto, há hipóteses que sustentam que a carta foi escrita durante o cativeiro romano de Paulo, outros entendem que seria durante seu cativeiro em Éfeso. A segunda ideia defende que a carta possivelmente foi enviada em meados dos anos 50 d.C. da capital da Ásia; enquanto a primeira hipótese, entende que teria chegado no início dos anos 60 d.C., quando começa o cativeiro em Roma. Ora, a lista de nomes fornecidas por Paulo no vv. 23-24, favoreceu fazer um estudo paralelo que permitiu chegar numa possível conclusão sobre o lugar da redação, cito: “a menção a Marcos, que não participou da terceira viagem missionária, de Aristarco e Lucas, favorece que assuma a tese de que a carta tenha sido enviada por Paulo no período de cativeiro em Roma, Talvez nos encontremos no início da prisão romana (60 d.C.) quando, sob prisão domiciliar, Paulo recebe entre outros a visita de Onésimo e o gera para a fé” (cf. PITTA, 2019, p. 251).

  1. ESTRUTURA LITERÁRIA

2.1 ESTILO E VOCABULÁRIO

Mais no estilo do que no vocabulário, a carta acusa o fato de um menor compromisso literário e ideológico por parte do apóstolo: não existe nem grandes conclusões nem grandes princípios, mas sim uma espécie de fluxo contínuo no qual tudo se relaciona com o anterior. Quanto ao vocabulário: apresenta 141 palavras diversas num escrito total de 335 (carta breve). Número de hápax legómena torna-se algo elevado: têm 4 hápax do Novo Testamento e 7 paulinos.

2.2 DIVISÕES
POSSÍVEL ESTRUTURA

INTRODUÇÃO DA CARTA (vv. 1-7) CORPO DA CARTA (vv.8-20) CONCLUSÃO DA CARTA
(vv. 21-25)

Saudação (vv. 1.s) Colocação (vv. 8-14)

Introdução (vv. 3-7) Solução (vv.15-20)

2.2.1 Leitura:

a) Introdução da carta (vv.1-7)
Saudação (vv.1-3). Conforme parece, o pai, a mãe e o filho acolhem uma “igreja” em sua casa (v.2).
Introdução: elogio a Filêmon (vv. 4-7). Salientam-se, quase confundindo-as, a caridade e a fé (v.5), insistindo em que a fé se transforme em caridade (v.6).

b) Corpo da carta (vv. 8-20)
Colocação (vv. 8-14). Depois de apresentar os seus títulos (vv.8s), o apóstolo expõe que Onésimo ganhou muito em valor (vv.10-12) e podia representar ele (Filêmon) diante de Paulo (v.13), mas quer contar com o seu proprietário (v.14).
Solução (vv. 15-20). Propõe o contrário: que represente Paulo diante de Filêmon (vv.15-17). Sente-se tão identificado com o escravo, que se compromete formalmente a pagar a sua dívida (vv.18s) e pede que o mesmo Filêmon se volte para “Onésimo”, isto é, se torne “desejável”, atendendo ao pedido de Paulo (v.20, onaimên, aludindo ao nome de Onésimo).

c) Final da carta (vv.21-25)
Espera obter a graça (v.21) e celebrar com uma visita (v.22). Termina com saudações e bênçãos (vv.23-25).

  1. A TEOLOGIA DA CARTA A FILÊMON

Apesar de ser a menor das cartas do corpus paulino, Filêmon também possui certa parcela de contribuição na Teologia do Novo Testamento. Pode-se afirmar que o principal enfoque teológico da mesma diz respeito ao poder transformador do evangelho e seus resultados na vida de um cristão.

3.1 O EVANGELHO TRANSFORMA INDIVÍDUOS

As contribuições da carta de Filêmon ao pensamento cristão está ligado ao poder transformador do evangelho, pois, “aquele que anteriormente foi considerado ‘inútil’ (achrêstos) tornou-se, como resultado da conversão (v. 10), ‘(muito) útil’ (euchrêstos)”. Na concepção de Paulo, a conversão deu uma guinada na existência na vida de Onésimo. Ele tornou-se um homem diferente. De um escravo fugitivo, ela torna-se um cristão colaborador do apóstolo Paulo no ministério da pregação do evangelho. O apóstolo sabe que, como um homem transformado, “uma nova pessoa em Cristo”, Onésimo demonstrará a “prova de sua conversão quando receber as boas vindas de volta em Colossos.

Por isso ele é enviado de volta. E, por tudo o que já fora dito sobre a escravidão neste artigo, é duvidoso se Onésimo teria retornado a Filêmon, mesmo com esta carta, se não tivesse realmente se convertido a Cristo. Além de Onésimo, Filêmon também fora transformado pelo poder do evangelho. Quando Paulo lhe escreve esta correspondência e lhe faz o pedido tema da mesma, o faz em nome do amor (v.9). O apóstolo presume que ele e Filêmon estão de acordo em relação ao “princípio central da fé cristã: o amor ao próximo”. Por causa das demonstrações de amor que Filêmon já vinha dando em relação a outras pessoas da comunidade cristã (vs. 5-7), Paulo entende que ele fará o mesmo em relação a Onésimo; afinal de contas, trata-se de alguém convertido a Cristo e transformado pelo evangelho.

3.2 O EVANGELHO DERRUBA BARREIRAS SOCIAIS

O pedido de Paulo a Filêmon, para que este receba a Onésimo, mostra que o apóstolo acredita que o evangelho derruba barreiras sociais. Ele crê “que o evangelho reconfigura um dos relacionamentos sociais mais básicos – e brutais – dos seus dias: a escravidão”. A escravidão era uma prática bem comum e presente no primeiro século.

Principalmente nas cidades, os escravos talvez fossem tão numerosos quanto os livres. A escravidão não se baseava em distinção de raça. Era comum condenar criminosos, endividados e prisioneiros de guerra à servidão; lá pelo século primeiro, no entanto, a maioria dos escravos nascia já nessa condição (GUNDRY, 2008, p. 61-62)

É bem possível que algo em torno de sessenta milhões de homens, mulheres e crianças viviam na servidão, em todo o império romano. Os escravos “eram considerados como bens particulares, ferramentas como machados e enxadas”. Ainda que fossem “almas humanas”, eram vendidos como mármore, bronze, ferro e canela.

Não possuíam direitos legais e poderiam ser criados, estuprados, punidos e assassinados ao critério dos seus senhores. Os poderosos da época defendiam a escravatura com unhas e dentes. Para eles, o regime era interessante e necessário para o bem do império. Encaravam-na como indispensável à vida econômica. “Sem o regime da escravatura, talvez os romanos não tivessem conseguido o domínio político da região do Mediterrâneo, tampouco suas célebres realizações arquitetônicas, urbanas, literárias e filosóficas teriam sido possíveis”. Para este autor, a escravidão provia às classes mais ricas o tempo vago necessário para a elaboração de estratégias, o planejamento de construções, o debate da legislação, a composição de poesias e ensaios e a meditação sobre a vida.

Como o apóstolo Paulo se posicionou diante deste regime? Apesar de não ter denunciado a escravatura em si, abertamente, o apóstolo tratou do problema indo direto em suas bases. O apóstolo trabalhou com princípios bíblicos que, de alguma maneira, minam todas as bases do pensamento da escravatura. Sobre isso, Shedd e Mulholland comentam:

Em suas epístolas, Paulo se dirige tanto a escravos como a senhores, da perspectiva dos propósitos de Deus de, em Cristo, formar um novo povo. Em nítido contraste com as práticas desumanizadoras da escravatura, ele se dirige aos escravos como seres humanos responsáveis (Ef 6.5-8; Cl 3.22-25). Pela fé em Jesus eles são filhos de Deus, em cujo reino não há ‘nem escravo nem liberto’ (Gl 3.26-28; Cl 3.11; I Co 12.13). Ele insiste em que o relacionamento entre indivíduos – incluindo o relacionamento entre o escravo e seu senhor – deve evidenciar que eles pertencem a Cristo. Paulo fala aos senhores de escravos firmado nas mesmas convicções. Deus não tem predileções. (…). Essa postura radicalmente distinta mina todo o conceito da escravatura.

Dentro do cristianismo, escravo e senhor são equalizados, enquanto família de Deus. Neste sentido, a carta de Filêmon traz uma mensagem. O escravo Onésimo deveria ser recebido como irmão (v. 16), na carne e no Senhor. Por trás desta fala de Paulo, está sua crença de que o evangelho derruba barreiras sociais e transforma relacionamentos. Essa redefinição radical de relacionamento entre senhor e o escravo remove a brutalidade e os aspectos desumanos do mercado romano de escravos, e sem estes aspectos, o desaparecimento desta instituição, pelo menos nos círculos cristãos, espera apenas que a aplicação coerente do conceito social radical de Paulo seja praticada.

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Uma das perguntas a ser feita ao terminar o estudo da carta de Paulo a Filêmon, é a que diz respeito ao desfecho da história. Teria Filêmon perdoado Onésimo? O texto do Novo Testamento não diz. Todavia, pode-se afirmar que sim, por ao menos duas razões:

“O fato da carta ter sido preservada inclusa no cânon é um forte indicativo da resposta favorável de Filêmon ao apelo de Paulo ”. A luz da história da Igreja cristã, meio século depois de Paulo ter escrito esta carta, o bispo Inácio da Síria foi preso e levado para Roma. De lá, antes de ser morto, ele enviou uma carta para todas as Igrejas que o ajudaram durante a sua viagem. Uma destas epístolas foi dirigida ao “Bispo Onésimo de Éfeso”.
É bastante possível, de acordo com alguns estudiosos, que Onésimo, libertado por Filêmon, tenha sido o bispo desta Igreja. Éfeso ficava perto de Colossos, onde Filêmon morava. Pode ser possível, também, que o fato de Onésimo ter se tornado bispo torna-se um fator importante para a inclusão desta carta no cânon do Novo Testamento. É apenas uma hipótese, mas vale a pena ser considerada.

REFERÊNCIAS

Bíblia Vozes. 51 edições. Petrópolis: Vozes, 2012.
BOSCH, Jordi Sánchez. Escritos Paulinos. 2. ed. São Paulo: Ave Maria, 2002.
GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. 3.ed. São Paulo: Vida Nova, 2008.
MIGUEZ, Nestor O. Hermenêutica e exegese a propósito da carta a Filêmon; Escravos do Império Romano: o caso de Onésimo. REVISTAS DE INTERPRETAÇÃO BÍBLICA LATÍNO-AMERICANA, Petrópolis: Editora Vozes. n. 28, 1997/3.
PAULO: Ave Maria, 2002.
PITTA, Antônio. Cartas paulinas. Petrópolis: Vozes, 2019.
THIELMAM, Frank. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Shedd, 2007.
WILKINSON, Bruce; BOA, Kenneth. Descobrindo a Bíblia. São Paulo: Candeia, 2000.

*Frei André Luiz de Souza, ofm: é franciscano pertencente a Custódia Franciscana das Sete Alegrias de Nossa Senhora, presente nos Estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

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