Bolsonaro e a Síndrome de “Dorian Gray”

Por| Hermes Abreu

O Romance de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray), pode nos servir de analogia para os atuais tempos. Tempos em que os ânimos estão mais em evidência do que a boa e confiável razão. Assim podemos entender nosso panorama político. Palco para narcisos, ditadores e monstros. Onde o desejo de se ver belo, destrói a tudo e todos que os cerca.

O personagem do romance de Oscar Wilde se torna cruel. Qual motivação de tamanhos vícios? Narcisismo, vaidade, sede de poder. Antes de ver estes dois personagens em analogia, Dorian Gray e Bolsonaro, conheçamos – um pouco mais – sobre o primeiro.

O Retrato de Dorian Gray inicia em um ensolarado dia de verão na Inglaterra da Era Vitoriana, onde Lord Henry Wotton, um homem opinativo, observa o sensível artista Basil Hallward a pintar o retrato de Dorian Gray, seu anfitrião, e um lindo jovem que é a musa final de Basil. Depois de ouvir a visão de mundo hedonista de Lorde Henry, Dorian começa a pensar que a beleza é o único aspecto da vida que vale a pena seguir, e deseja que o retrato de Basil envelheça em seu lugar.

Sob a influência hedonista de Lord Henry, Dorian explora plenamente a sua sensualidade. Ele descobre a atriz Sibyl Vane, que atua em peças de teatro de Shakespeare num teatro sombrio da classe trabalhadora. Dorian se aproxima e a corteja, e logo propõe casamento. A apaixonada Sibyl o chama de “Príncipe Formoso”, e desmaia com a felicidade de ser amada, mas seu irmão protetor, James, um marinheiro, adverte que, se seu “Príncipe Formoso” a magoasse, iria matá-lo.

Dorian convida Basil e Lord Henry para ver Sibyl atuar em Romeu e Julieta. Sibyl, cujo único conhecimento do amor foi através do amor ao teatro, renuncia a sua carreira de atriz para experimentar o amor verdadeiro com Dorian Gray. Desanimado por ela ter abandonado o palco, Dorian rejeita Sibyl, dizendo-lhe que atuar era a sua beleza; sem isso, ela já não era interessante. Ao voltar para casa, Dorian percebe que o retrato foi alterado; seu desejo realizado, e o homem do retrato carrega um sorriso sutil de crueldade.

Conscientemente ferido e solitário, Dorian decide se reconciliar com Sibyl, mas é tarde demais, enquanto Lord Henry informa que Sibyl se matou por engolir ácido cianídrico. Dorian então, entende que, a partir daí, sua vida dirigida pela luxúria e boa aparência seria suficiente. Nos dezoito anos seguintes, as experiências de Dorian, com todos os seus vícios, são influenciados por um romance francês moralmente venenoso, um presente recebido do decadente Lord Henry Wotton.

Uma noite, antes de partir para Paris, Basil vai à casa de Dorian lhe perguntar sobre os rumores de seu sensualismo auto-indulgente. Dorian não nega sua devassidão, e leva Basil a um quarto fechado para ver o retrato, que havia se tornado hediondo pela corrupção de Dorian. Na raiva, Dorian culpa seu destino sobre Basil, e o apunhala até morrer. Dorian depois calmamente chantageia um velho amigo, o químico Alan Campbell, para destruir o corpo de Basil Hallward em ácido nítrico.

Para escapar da culpa de seu crime, Dorian vai para um antigo antro de ópio, onde James Vane está inconscientemente presente. Ao ouvir alguém se referir a Dorian como “Príncipe Encantado”, James o procura e tenta atirar em Dorian. Em seu confronto, Dorian engana James ao fazê-lo acreditar que é muito jovem para ter conhecido Sibyl, que se suicidou dezoito anos atrás, já que seu rosto ainda é o de um jovem. James cede e libera Dorian, mas depois é abordado por uma mulher do antro de ópio que reprova James por não matar Dorian. Ela confirma que o homem era Dorian Gray e explica que ele não envelheceu em dezoito anos; compreendendo demasiado tarde, James corre atrás de Dorian, que se foi.

Uma noite, durante o jantar em casa, Dorian espiona James rondando a casa. Dorian teme por sua vida. Dias depois, durante uma caçada, um dos caçadores acidentalmente atira e mata James Vane, que estava escondido em um matagal. Ao retornar a Londres, Dorian diz para Lord Henry que irá ser bom a partir de então; sua nova proibidade começa com não partir o coração da ingênua Hetty Merton, o seu interesse romântico atual. Dorian se pergunta se sua bondade recém-descoberta teria revertido a sua corrupção no retrato, mas ele só vê uma imagem mais feia de si mesmo. A partir daí, Dorian entende que seus verdadeiros motivos para o auto-sacrifício de reforma moral foram provocados pela vaidade e a curiosidade pela busca de novas experiências.

Decidindo que só a completa confissão iria absolvê-lo de delitos, Dorian decide destruir o último vestígio de sua consciência. Enfurecido, Dorian pega a faca com que ele assassinou Basil Hallward e apunhala o retrato. Os servos da casa acordam ao ouvir um grito do quarto fechado; na rua, os transeuntes também ouvem o grito e chamam a polícia. Ao entrarem na sala trancada, os servos encontram um velho desconhecido, esfaqueado no coração, seu rosto e figura estão secas e decrépitas. Os servos identificam o cadáver desfigurado pelos anéis nos dedos que pertencem ao seu mestre; ao lado deles está o retrato de Dorian Gray, que regressou à sua beleza original.

Agora, Bolsonaro: O que faz uma pessoa não ter respeito por ninguém à sua volta? Sabendo que suas decisões maculam os direitos fundamentais, sonhos, esperanças dos pequenos; como pode alguém seguir firme neste caminho: a destruição dos empobrecidos, das minorias? Assim se faz no atual governo. Nada mais importa, exceto a lascívia luta pelo poder. Uma relação de obsessão patológica. Não mais se vê a realidade. Somente a ideia fixa de um “governo de notáveis”. O atual governo se sente mito, governo dos impecáveis, dos perfeitos. Entretanto, no sótão, a imagem real e fantasmagórica, declina da simples feiura à monstruosidade. Aqui podemos entender que – em uma visão mais metafórica que literal – a Síndrome de Dorian Gray se aplica. Não por mero apego à aparência, ou ao medo de se envelhecer. Falamos da obsessão de ser belo aos olhos daqueles que o viram como mito. A dificuldade de entender que o mundo não gira em torno de si. De entender que o coletivo importa e enriquece o indivíduo. Que a beleza não deve sobrepujar o Bem Estar.

Bolsonaro é o arquétipo do individualismo compulsivo, narcisista. Uma cegueira que faz daquele a quem foi confiada a esperança de um povo, tornar-se seu próprio algoz. O herói de muitos, torna-se o monstro. Que os sótãos do poder sejam abertos e as aberrações reveladas.

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