33º Domingo do Tempo Comum – 17 de novembro

Por Zuleica Aparecida Silvano

“O Senhor julgará a terra com justiça” (Sl 96)

I. Introdução geral

Neste 33º domingo do Tempo Comum, decretado dia mundial dos pobres pelo papa Francisco (na carta apostólica intitulada Misericordia et misera, n. 21), a liturgia nos recorda que “a pobreza está no âmago do evangelho” e que é necessário tomarmos consciência de que não pode haver justiça nem paz social numa realidade em que prevalece a injustiça.

Assim, o dia mundial dos pobres pretende ser uma pequena resposta, dirigida pela Igreja inteira espalhada por todo o mundo, aos pobres de todo gênero e de todo lugar, para que não pensem que o seu clamor tenha caído no vazio. Provavelmente, é como uma gota de água no deserto da pobreza; contudo, pode ser um sinal de partilha para quantos passam necessidade, a fim de sentirem a presença ativa de um irmão e de uma irmã (papa Francisco, Mensagem para o dia mundial dos pobres – 2018).

Nesse sentido, o dia mundial dos pobres não deve ser marcado somente por uma ajuda momentânea ou por ações assistencialistas, mas como um dia que faz memória da nossa opção fundamental pelo pobre.

II. Comentários dos textos bíblicos

1. I leitura: Ml 3,19-20a

Malaquias é um profeta do pós-exílio (séc. V a.C.), e a pergunta que perpassa o trecho escolhido para esta liturgia é: onde está o Deus da justiça? Essa pergunta surge da angústia daqueles que sofrem as injustiças e do aparente silêncio de Deus (cf. Sl 73; Jr 12,1-2). Além de denunciar as injustiças, o profeta afirma que acusar o Senhor de injusto é uma forma superficial de julgar os acontecimentos e a realidade. Esse comportamento, segundo o profeta, é desculpa para não iniciar um processo de conversão sincera, responsabilizando o Senhor pela injustiça social e encobrindo as próprias más ações. É nesse contexto que Malaquias afirma que o tempo da paciência de Deus terminou, e anuncia o “dia do Senhor”. Nesse dia, acontecerá um julgamento purificador e salvador, no qual a justiça triunfará e a impunidade e a injustiça serão destruídas. Com efeito, aqueles que buscam a justiça serão retribuídos com a salvação e os ímpios serão aniquilados. O profeta escolhe imagens fortes para expressar a intervenção divina e a transformação da sociedade. Por exemplo, o fogo abrasador, que nos remete aos eventos teofânicos, ou seja, da manifestação de Deus (cf. Ex 19,16-20,22; Dt 4,1-20).

Além da injustiça, Malaquias denuncia o culto desvinculado da vida, o uso do Templo para explorar as pessoas, e exorta a comunidade a prestar verdadeiro culto a Deus, que consiste em uma vida marcada pela observância dos mandamentos. Desse modo, esse texto não deseja provocar medo, mas é um apelo à conversão, à fidelidade à aliança estabelecida com Deus.

2. Evangelho: Lc 21,5-19

O texto de Lc 21,5-19 é um trecho do chamado discurso escatológico no evangelho lucano (cf. Lc 21,5-38). Trata-se dos eventos que antecedem o fim dos tempos, o fim do mundo. Por isso, é marcado pela linguagem e por elementos da chamada apocalíptica judaica e objetiva manter a esperança das comunidades cristãs que vinham sendo perseguidas pelo império romano por seguirem o Messias Jesus. Essa passagem foi escolhida para esta liturgia porque estamos no final do ano litúrgico, tempo em que somos convidados a avaliar nossa caminhada antes da grande festa de Cristo Rei do Universo. Esse “dia do Senhor”, anunciado pelo evangelista Lucas, é um dia de alegria, de plenitude e de libertação. Isso porque os cristãos provam seu compromisso com a justiça e com o Reino de Deus, e depositam sua confiança no Deus da vida, e não em aparentes seguranças anunciadas pelos falsos profetas.

O texto se inicia afirmando que o povo não deve depositar sua segurança na beleza do Templo e nas ofertas. Essas priorizam o exterior, enquanto o importante é o culto que expressa uma vivência coerente com a vontade de Deus. Os discípulos não devem se iludir, pois, da mesma forma que Jesus foi perseguido, eles também o serão (cf. v. 12). O contexto de guerra, perseguição, sofrimento é a realidade das comunidades, que vivenciaram a Guerra Judaica (67 a 70 d.C.) e suas consequências (cf. vv. 7-11). Nesse contexto, surge a pergunta: vale a pena seguir Jesus de Nazaré? O evangelista afirma que é necessário não desanimar, e ter a convicção e a consciência de que é justamente nesse momento de grande sofrimento que os discípulos são convidados a professar sua fé em Jesus crucificado e ressuscitado (cf. v. 13). Portanto, é necessário confiar na ação de Deus em sua vida, mesmo diante do conflito e da morte, pois é permanecendo firmes que ganharão a vida (cf. v. 17). Essa exortação final é uma promessa dada àqueles e àquelas que permanecem firmes e perseverantes no seguimento de Jesus. Tal promessa pode ser interpretada no sentido escatológico, como recompensa prometida aos justos ou aos mártires – a saber, a ressurreição dos mortos –, ou pode ser entendida como a vida cristã, que é a participação no mistério pascal de Cristo. Assim, os batizados terão o mesmo destino de Jesus, dado que segui-lo não os isenta das dificuldades e do sofrimento, porém carregam a certeza de que o Reinado de Deus já se faz presente em seu meio.

3. II leitura: 2Ts 3,7-12

Como sabemos, a segunda carta aos Tessalonicenses foi escrita por um discípulo de Paulo, apesar de ser atribuída a esse apóstolo, e traz um tema que Paulo aborda na primeira carta aos Tessalonicenses: o trabalho. Tal tema é característico dessa comunidade, pois reflete um conflito presente em seu interior. Esse conflito surgiu quando alguns membros da comunidade abandonaram suas atividades após ouvirem falar sobre a vinda imediata do Senhor, chegando a ponto de viverem à custa dos outros e incomodarem a comunidade com argumentos banais que, provavelmente, justificavam sua opção. Por isso, o autor afirma: “Ouvimos dizer que entre vós há alguns que vivem à toa, muito ocupados em não fazer nada” (v. 11).

Não obstante, é importante ressaltar que o trabalho, na sociedade greco-romana, era visto como algo desprezível, constituindo uma tarefa própria dos escravos, e não do homem livre. O autor apresenta Paulo como modelo de trabalhador e de apóstolo. Afirma-se, assim, que o trabalho manual não é algo desprezível e que, por meio de um trabalho justo, é possível ter acesso aos bens. Desse modo, os fiéis devem ganhar o próprio sustento e não se aproveitar da solidariedade dos irmãos da comunidade. Ao mesmo tempo, o texto confirma que a espera pela vinda do Senhor deve ser ativa, marcada pela caridade, pela justiça, pois a vinda esperada, o fim dos tempos, a parusia, será a plenificação da comunhão já vivida entre os membros da comunidade e com os outros irmãos e irmãs.

III. Pistas para reflexão

As leituras e a celebração do dia mundial dos pobres nos oferecem várias dicas para reflexão. A I leitura nos chama a atenção para a tentação de desvincularmos o culto da vida, de acusarmos Deus pela injustiça e não assumirmos nosso compromisso com a justiça social, não ouvindo os apelos à conversão. Outra tentação é desanimarmos e, diante das exigências da ética cristã, perguntarmos se vale ou não a pena seguir Jesus de Nazaré.

Uma realidade que também deve nos interpelar, ao ouvirmos as leituras deste dia, é a do trabalho. Não estamos no mesmo contexto da segunda carta aos Tessalonicenses, mas é necessário refletirmos sobre essa realidade neste dia mundial dos pobres. A exploração no trabalho é uma das denúncias frequentemente presentes nos discursos do papa Francisco. Para o papa, essa exploração é uma das causas da desigualdade e da exclusão social. Assim, surge a necessidade de refletirmos sobre o trabalho e, também, sobre a solidariedade. Para tanto, é importante recordar as propostas de atividades da Cáritas Brasileira, elencadas no Manual da Campanha da Fraternidade de 2019, para celebrar o dia mundial dos pobres, que podemos sintetizar nas seguintes: promover as ruas solidárias (como mutirão de cidadania, arrecadação de alimentos e outras iniciativas); visitar e criar atividades em orfanatos, abrigos, asilos, presídios, hospitais; criar e realizar círculos bíblicos sobre o tema do trabalho e questões sociais; rezar pelos empobrecidos; promover rodas de reflexão sobre questões sociais relacionadas às desigualdades sociais e incentivar as mesas fraternas, ou outras atividades concretas relacionadas às políticas públicas (cf. CNBB. Manual da CF-2019: Fraternidade e Políticas Públicas. Brasília: CNBB, 2018. n. 254 a 261).

Zuleica Aparecida Silvano

Ir. Zuleica Aparecida Silvano, religiosa paulina, licenciada em Filosofia pela UFRGS, mestra em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico (Roma) e doutora em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde atualmente leciona. É assessora no Serviço de Animação Bíblica (SAB/Paulinas) em Belo Horizonte.

Fonte: Vida Pastoral

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s