Somos todos Alverne

Por| Hermes Abreu

Às vezes é preciso subir à montanha. Estar só com Deus e, quem sabe, deixar-se marcar por ele.

São Francisco de Assis, em 1224, veio plenificar sua relação com o Crucificado. A sua busca em viver o Evangelho fez de sua existência uma identificação com o próprio Crucificado. Francisco é o “Servo crucificado do Senhor Crucificado” (1Cel 95,5). A vida do Poverello de Assis é marcada pela experiência de crucificar-se. Renunciar, superar-se, fazer-se imitação de Jesus, Servo e Sofredor (cf. Is 53). O caminho de São Francisco é pautado nesta dinâmica penitencial para se assemelhar ao Amado, Jesus. Sua vida de penitência acontece em dois momentos cruciais, o primeiro é o encontro com o leproso. Esse encontra neles a pessoa de Cristo Crucificado (cf LM 1,6,2). Ao afirmar em seu Testamento que “Aquilo que me parecia amargo, converteu- se em doçura da alma e do corpo” (Test 2). Francisco não vence apenas a repulsa, mas se compadece e ama, pois consegue ver nas feridas abertas e fétidas, as chagas do próprio Senhor Crucificado. O segundo momento que caracteriza o início da vida de penitencia é o encontro com o crucifixo de São Damião. Esse encontro também é muito significativo, pois além de apontar a missão do jovem de Assis, de “reconstruir a Igreja”, acentua o amor ao mistério da Paixão, pois “desde aquela hora seu coração tornou-se tão vulnerado e comovido, lembrando a paixão do Senhor, que sempre, enquanto viveu, trouxe os estigmas do Senhor Jesus em seu coração” (LTC 14,1). Para concluir esta dinâmica de imitação do Cristo e Cristo Crucificado, dois anos antes de sua morte, encontrando-se numa fase de grande angústia e turbulência, Francisco vai ao monte Alverne para fazer a quaresma de São Miguel. Além da doença física, Francisco experimenta a tristeza de ver a Ordem se desvirtuar daquilo que intuiu ser a inspiração originária da verdadeira pobreza evangélica para si e seus irmãos, que livremente vieram abraçar esse estilo de vida. Assim como o Cristo, também Francisco sobe o monte calvário. O servo faz a experiência do Senhor dos Passos, sente a angústia, o medo e a solidão. E é no profundo vazio do abandono que Francisco é visitado pelo Senhor através de um Serafim Alado. A experiência da solidão, o mergulho no nada, a ânsia de se completarem entre si, tornam-se as condições de possibilidade para o verdadeiro encontro do Amor divino e misericordioso para com a humanidade do pobre servo. Esse encontro se dá como uma resposta de Deus àquele a quem tanto procurou manter-se no Senhor e sentir em seu corpo o amor e a dor de Cristo na Cruz. Por muitas vezes e de forma incansável o pobrezinho de Assis, recolhia-se em lugares solitários, florestas, montes e grutas. Sempre mantinha o contato íntimo com seu Senhor, “orando sem cessar, esforçava-se em manter o espírito na presença de Deus” ( LM 10,1,1) e na contemplação do madeiro sagrado, pois “sempre trazia a Paixão de Cristo em seus olhos” (cf 2 Cel 11,6). No Alverne, diante do Serafim, Francisco não mais busca, mas se deixa encontrar, não mais o contempla, mas experimenta em sua carne a Paixão do Crucificado.

E Francisco tanto amou o Crucificado, que partilhou sua dor. Dor de Cruz. Se antes experimentou o amor de Deus, na Pessoa de seu Filho, pelos pequenos, diante dos leprosos, pobres e marginalizados; ao ápice de seu itinerário espiritual, deixou-se crucificar, amando-o até o fim.

Esse caminhar de São Francisco, pode ser o nosso. Também somos chamados a seguir Jesus, ao exemplo do Pobre de Assis. Não são poucos os leprosos de nossos dias. Chagados pelas várias formas de exclusão. Ao nosso redor, estes nos saltam aos olhos. Pessoas em situação de rua, vitimadas por várias patologias psicossociais, empobrecidos, explorados pelo vil Capital. Somos chamados a abraçar, acolher e amar. Diante do Cristo Crucificado, devemos repetir a pergunta a Jesus: “Senhor, que queres que eu faça?” Optando pelo crucificado, façamo-lo em sua radicalidade. Até a Cruz. De um martírio incruento, desprezando o que nos afasta das Realidades do Reino; a – quem sabe – martírio cruento, quando – anunciando o Reino – tombarmos diante dos poderosos.

É preciso se identificar com o Cristo. Amando sempre, perdoando sempre, estando sempre ao lado dos mais fracos. Fazendo o itinerário de seguimento de Jesus, exemplificado por São Francisco, cheguemos à plena comunhão com Ele. E, quem sabe, chegarmos à plenitude do Alverne. Não de forma poética, alienada. Na radicalidade do seguimento de Cristo, somos todos Alverne.

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