Bíblia – Como entender sua Inspiração?

Por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Escrita em hebraico, aramaico e grego, na Palestina, na Babilônia, no Egito, na Síria, na Grécia e na Itália, a Bíblia é fruto de um grande mutirão de escritores, formado por lideranças e comunidades, tendo seu início pelo ano 1000 a.E.C., e término no ano 100 E.C. A pena desses escritores registrou doutrinas, provérbios, cânticos, salmos, lamentações, cartas, sermões, profecias, meditações, orações, romance, cantos de amor, biografias, poesias, parábolas, comparações, tratados, contratos, leis para organizar o povo e o culto, entre outros. Para o frade Carlos Mesters, a Bíblia é como um álbum de fotografias que ficam misturadas. Para entendê-las, alguém tem de explicá-las. Conhecer as Escrituras, sem o risco de fazer leitura fundamentalista, não é nada fácil. Mas também não é coisa de outro mundo. Bastam um pouco de esforço, estudo constante e deixar-se guiar pela fé e pela ação do Espírito Santo, que sempre nos guia e nos faz tirar coisas novas do antigo e precioso baú chamado Bíblia. É como acontece com todos nós, quando chegamos a uma cidade grande para morar. No início, tudo parece difícil e complicado, mas aos poucos, com o conhecimento do local, tudo nos parece familiar.

Para compreender a Bíblia, devemos compreender como se deu seu processo de inspiração. Muitas pessoas pensam que inspiração bíblica é um ato mágico. Deus ditou lá do alto suas palavras para os escolhidos. No entanto, não é bem isso. Vejamos como tudo aconteceu.

Critérios de inspiração

A seleção dos livros que compôs o cânone, isto é, a lista dos livros inspirados da Bíblia, seguiu, fundamentalmente, critérios de fé. O povo, movido pela crença no Deus que o havia escolhido, entre todos os povos, para ser Sua testemunha, recolheu o que havia de melhor na já escrita literatura sobre sua experiência de fé.

A seleção levou anos, séculos de muita observação e vivência da mensagem de Deus. Muitas discussões e batalhas ideológicas, tanto no seio da comunidade judaica, como na cristã, serviram para acrescentar ou excluir este ou aquele livro. Cento e quarenta livros ficaram fora da Bíblia, formando a Apócrifa. Existem vários critérios utilizados para integrar o cânone bíblico, a saber:

1) O livro deveria conferir identidade religiosa aos povos judeu e cristão. Para os judeus, se não tratasse de temas que não fossem sobre a identidade religiosa de Israel, o livro não era inspirado. Para os cristãos, da mesma forma, a obra deveria transmitir a experiência de fé vivida com o Jesus histórico e o da fé. O povo judeu sempre primou pela consciência de povo eleito. O livro deveria manter vivo esse tipo de fé, como símbolo da identidade nacional. Já os livros do Segundo Testamento teriam de professar a fé em Jesus crucificado, morto e, sobretudo, ressuscitado.

2) O livro não poderia ser escrito em grego, isto é, os do Primeiro Testamento (PT), pois os do Segundo Testamento (ST) foram escritos em grego, mas no contexto cristão. Esse idioma não era sagrado pelos judeus, pois esse era o vernáculo de seus opressores idólatras. Deus não poderia se revelar na língua do opressor, pensavam. Como vimos anteriormente, nesse caso, estamos falando dos sete livros que não entraram na lista inspirada judaica, ou seja, Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Judite, Baruc, I e II Macabeus, bem como partes de Ester e Daniel. Os cristãos consideraram-nos como uma segunda lista de livros inspirados do PT, ou seja, os deuterocanônicos.

3) Ter sido escrito durante a época que vai de Moisés a Esdras (século V). Esdras foi um personagem muito importante para o judaísmo. Ele viveu em um período em que o povo judeu, no Exílio da Babilônia e no pós-exílio, escreveu muitos livros sobre sua história, com destaque para o Pentateuco. O livro apócrifo IV Esdras 14,18 diz que ele ditava para os escribas o texto dos livros perdidos na destruição de Jerusalém de 587 a.E.C. Por outro lado, é consenso entre os estudiosos que ele não teria feito uma lista de livros inspirados, mas simplesmente influenciou na escolha.

4) Ter sido catalogado na lista de Flávio Giuseppe. Ele foi um importante judeu e historiador judaico. Aliado ao Império Romano, conservou muitos dados importantes da fé para judeus e cristãos. Em sua lista de livros inspirados, Giuseppe catalogou 22.

5) O livro não podia “manchar a mão”, isto é, deveria ser de Deus, um livro puro. O conteúdo escolhido teria de ser diferente dos outros, os profanos. Quem fosse manusear ou ler um livro sagrado deveria passar por ritos de purificação. Se “manchasse a sua mão”, o conteúdo não era sagrado. Sempre foi difícil entender esse detalhe de critério judaico de inspiração para a Bíblia Hebraica.

6) Não ter origem em grupos de oposição ao pensamento dominante. Este é o caso dos dois livros dos Macabeus. Estes eram um grupo que lutava contra os romanos e pelo restabelecimento do judaísmo, sendo considerados inimigos dos fariseus, grupo religioso judaico que tinha a condução da religião judaica e que definiu o cânone judaico em Jammia. Assim, não fica fácil entender o porquê de os livros que narram as lutas macabaicas não terem sido considerados inspirados. No ST, esse mesmo critério também foi utilizado. Por motivos diversos, que veremos mais adiante, os livros do ST produzidos pelos gnósticos (grupo de cristãos que mais se opôs ao cristianismo, que se tornou hegemônico) também não foram considerados inspirados. Exemplo disso é o evangelho de Maria Madalena, que também poderia estar ligado à tradição feminina. Os Atos dos Apóstolos são mais atos de Pedro e de Paulo que dos outros apóstolos. Bispos e outras lideranças do cristianismo emergente tiveram contato com os livros apócrifos usados pelas comunidades cristãs; ora eles os aprovavam, ora os reprovavam. Serapião, por exemplo, aconselhou o uso do evangelho de Pedro nas comunidades, mas depois o proibiu, por acreditar que nele haveria indícios de pensamento gnóstico doceta.

7) Ser usado por muitas comunidades. Para ser inspirado, um livro deveria ser utilizado por várias comunidades ao mesmo tempo, o que assegura a presença de revelação divina deles para as comunidades. Nesse sentido, para o ST, é de muito valor a tradição apostólica de um livro. A escolha dos evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João, verdadeiros best-sellers da época, foram reconhecidos como inspirados, pois eles reuniram o que havia de melhor sobre a experiência das comunidades primitivas com o Jesus histórico, morto e ressuscitado.

8) Ser inspirado pelo Espírito Santo. As comunidades do ST tiveram como critério fundamental de inspiração a presença do Espírito Santo na composição de um livro. Muitas pinturas antigas tentaram demonstrar isso, apresentando Deus soprando as palavras para o evangelista. Hoje, sabemos que não é bem assim. Perceber a presença do Espírito Santo revelando a vontade divina não é um ato mágico, mas experiência de fé e união com Deus.

Processo de seleção dos livros

A seleção dos livros inspirados da Bíblia passou por vários momentos. Os judeus, isto é, os fariseus, que sobreviveram ao massacre judaico romano do ano 70, reunidos no Sínodo de Jammia, definiram que a Bíblia Hebraica teria 39 livros. Entre os cristãos, o processo de seleção foi mais longo. No ano 150, Marcião, um influente cristão convertido e contrário ao judaísmo, propôs uma lista de livros inspirados contendo somente o evangelho de Lucas e as cartas paulinas. Esse foi o Cânone de Marcião. Seu mentor foi considerado herético pelo cristianismo, que se tornou hegemônico, sendo expulso da Igreja.

No ano 200, foi proposto um novo cânone de livros inspirados, denominado Cânone Muratoriano, nome do estudioso que o descobriu no século XVIII, em Milão, na Itália. Nessa lista, figuram os quatro evangelhos atuais, o Apocalipse de João, o Apocalipse de Pedro, a Sabedoria de Salomão, as Cartas paulinas e pastorais, exceto Hebreus, Tiago, I e II Pedro, e uma joanina. Nesse cânone, estão listados 22 dos 27 dos atuais livros inspirados do Segundo Testamento.

Assim, os critérios usados para a seleção do cânone do ST foram: proximidade do livro com a época de Jesus; ser escrito por um apóstolo ou seu companheiro; ser usado na maioria das igrejas; refletir o pensamento do cristianismo, que se tornou hegemônico. Nesse processo de definição do cânone, vale mencionar a aceitação, entre os cristãos da época, de também como livros inspirados a I Carta de Clemente, o evangelho de Pedro, o Apocalipse de Pedro, a III Coríntios e a Epístola de Barnabé.

Em 367, após ordenar a queima dos livros apócrifos, Atanásio, bispo de Alexandria, propôs uma lista de livros inspirados com os atuais livros da Bíblia Católica. No Concílio de Hipona, em 398, Agostino de Hipona defendeu a proposta de Atanásio, que acabou sendo aprovada pelos bispos.

Em 1546, no Concílio de Trento, na Itália, em resposta à Reforma de Lutero, que havia retornado para a lista inspirada hebraica sem os sete deuterocanônicos, os bispos selaram definitivamente a lista de livros inspirados da Bíblia.

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