Sobre a Mulher Menstruada na Bíblia

Existia um lugar apropriado e afastado da cidade onde as mulheres eram levadas durante o tempo da menstruação, como acontecia com os leprosos?

Por Luiz da Rosa

Não, não existia. Quem tinha lepra era afastado das cidades por uma questão de higiene, de segurança social. As mulheres, mesmo menstruadas viviam em suas casas e, como veremos, quando a Bíblia fala da “impureza” das mulheres menstruadas, não as está excluindo da sociedade, mas faz uma leitura teológica do momento especial que vivem.

A sua pergunta certamente deriva da leitura de um preceito muito curioso para nós, que se encontra em Levíticos 15,19 seguintes:

Quando uma mulher tiver sua menstruação, ficará impura durante sete dias. Quem a tocar ficará impuro até à tarde.

Existiam igualmente leis particulares para os homens, quando ejaculavam, como vemos no mesmo capítulo bíblico. Eram menos rígidas, pois a natureza de ambos os casos é diferente.

Em relação à menstruação da mulher, quem é mais “antigo” e original de ambientes menos urbano lembra bem que, até pouco tempo atrás – e quem sabe ainda hoje -, existiam algumas crenças em relação às mulheres que passavam por esse período: em alguns ambiente se dizia que a sua presença podia estragar certos alimentos ou que não podia tocar a água, etc. Isso revela um certo tabu em relação a esse estado típico da mulher. Talvez algum elemento desse tipo também esteja presente em certas leis bíblicas. Todavia, a partir desse texto de Levíticos se pode – e devemos – fazer uma reflexão muito mais profunda, que considera dois elementos que estão intimamente ligados entre si: a vida e o sangue. Junto com eles, precisamos dizer uma palavra sobre o tema da “pureza” na Bíblia, coisa difícil para nós hoje entendermos.

A sacralidade do sangue e do momento da menstruação

Na Bíblia, o sangue é a vida e por isso pertence exclusivamente a Deus: a vida é sagrada e o ser humano não pode ter a ousadia de tocá-la, virar seu senhor. Do que é sagrado, por causa da esfera completamente alheia ao ser humano, as pessoas devem estar bem longe. A Deus, por exemplo, ninguém pode ver (lembre-se de Moisés, diante da sarça ardente ,ou daqueles que transportavam a Arca da Aliança e que sem querer tocaram nela e por isso logo morreram). Sendo o sangue coisa divina, o ser humano precisa ficar longe dele. Para afastá-lo, eis que a Bíblia o chama de impuro. Portanto, a impureza não é uma categoria moral, como provavelmente pensamos nós, mas um aviso que convida a refletir sobre a importância de tal matéria.

Aplicando essa reflexão sobre o puro e imputro segundo a Bíblia, fica mais fácil de entender a prescrição de Levítico 15,19: a mulher é impura porque está vivendo um momento único, divino, de fundamental importância para o plano de Deus. As pessoas, portanto, precisam estar longe disso, pois são indignas de experimentá-lo, de tocá-lo; tudo isso pertence à esfera divina, que à mulher é dado viver.

Descendo mais no concreto, na mentalidade antiga o impuro e o sagrado estavam coligados, pois tinham uma força misteriosa. Na prática, o impuro e o sagrado são da mesma forma intocável e quem tem a ver com essa realidade se torna, por sua vez, intocável. Na Bíblia, não se pode tocar em um cádaver, mas também não se pode tocar na Arca da Aliança. Assim como a mãe tem que se purificar depois do parto, da mesma maneira o sacerdote precisa trocar de roupa depois do sacrifício. Ao contrário do que pensamos, não se está falando de uma impureza física e também não de uma virtude do espírito. É simplesmente um estado do qual é necessário sair para retornar à vida normal.

Para refletir

As expressões hebraicas tāhōr “puro” e tāmē “impuro” são termos técnicos que não têm conotação moralmente positiva ou negativa em si mesmos. De acordo com as Escrituras, ou você está num estado de pureza, ou num estado de impureza. A impureza é um fenómeno humano. O problema é que os termos “puro” e “impuro” foram usados como metáforas para “bom” e “mau”, mas é quase impossível encontrar uma palavra equivalente que expresse adequadamente o significado do termo bíblico tāmē’, que é traduzido como “impuro”, palavra que transmite uma conotação muito negativa. No entanto, o termo não dá um significado de julgamento moral, a menos que o estado de impureza seja causado por um ato proibido por lei. O termo pode simplesmente significar incompatibilidade ou despreparo para entrar na presença de Deus (por exemplo, o santuário do templo).

José de Arimatéia (Lc 23,53) tomou o corpo de Jesus que estava na cruz, envolveu-o e colocou-o num túmulo esculpido na rocha. Tornou-se ritualmente impuro através deste contacto com um cadáver. Sua condição ritual, no entanto, foi o resultado de um comportamento correto. Podemos condenar José de Arimateia?

Há, por exemplo, quem pergunte se uma mulher menstruada pode participar da Ceia do Senhor. Perguntemo-nos: Será que Jesus reprovou a mulher do fluxo de sangue por torná-lo impuro, visto que foi tocado por ela (veja Lucas 8,43-48)?

Luiz da Rosa

Luiz da Rosa:

Natural de Santa Catarina, casado, vive atualmente em Roma, na Itália, onde trabalha como diretor de comunicações do Instituto dos Irmãos Maristas.

Possui o Bacharelado em Filosofia (1988-1990 – Instituto Filosófico Franciscano de Curitiba). Cursou 4 anos de teologia em Jerusalém (1991-1994 – Istituto teologico Ierosolumitano). Conseguiu o Mestrado em Ciências Bíblicas no Pontífico Instituto Bíblico de Roma (1996-2000) e dois anos mais tarde superou a Lectio Coram que lhe dava o direito de seguir com o doutorado pelo mesmo instituto. Fez os cursos para o doutorado, mas não terminou a Tese.

Em 2015 concluiu um mestrado de Comunicação Intitucional Religiosa na Faculdade Blanquerna de Barcelona, na Espanha.

Foi Professor de Sacrada Escritura no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (1995 e 2001) e também professor de Tecnologias da Comunicação em Âmbito Religioso, de 2009 a 2011, na Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma.

Fonte: abiblia.org

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