Sobre angústia, esperança e passarinhos

Por| H. Abreu

Em latente, constante opressão interior, contemplo o quintal de nossa casa. Como muitos o fazem, por vezes, tenho o olhar perdido. Olho sem ver, ocupado em pensar.

Notícias são muitas. Medo, violência, mentiras, prisões de alguns corruptos, soltura de outros. Tempos sombrios.

A mídia não nos poupa de tantas mazelas. Tanto penar. Tornou-se a Terra Brasilis, pátria da insegurança. Do medo.

Enquanto homens e mulheres se matam por dinheiro, controle do tráfico de drogas, passionais histórias de amor, que culminam em noticiários de morte; o governo segue com seu desgoverno. Já não se entende as metas. Nem mesmo os discursos. O Brasil tornou-se nau à deriva. Desgovernada.

Nossas comunidades cristãs, adaptadas ao meio, se descristianizam. Nunca os discursos de ódio superaram tanto os do amor. Nunca a intolerância, arquétipo apropriado ao farisaísmo, esteve tão presente nos lábios daqueles que se dizem ao lado de Jesus.

Tempos difíceis. Tempos sombrios.

Ainda estou a contemplar o quintal. Olhar perdido. Olhando, sem ver. Outrossim, meus ouvidos se deixam surpreender por sons conhecidos. Constantes no cotidiano, entretanto, com um toque de especial importância neste lancinante dia. Pardais, frágeis passarinhos, preparando-se para o entardecer, procuram consolo, lugar para repouso. Não obstante nossa crença em sua irracionalidade, percebo-os a se comunicar. Se entendem sobre espaço, descanso, harmonia. Nós, os humanos da tecnologia, filosofia e outros saberes, recorremos às armas, à violência para manter nosso lugar ao sol. Nossas posses, idéias e ideais. Amores e desamores. Tornamo-nos algozes de nossa própria espécie. Irracionais em nosso viver.

Como São Francisco aprendeu o louvor e a simplicidade das cotovias, devemos apreender dos pardais. Paradoxalmente, estes mostram-se propensos a repousar na noite que se inicia em profunda paz. Dividem espaço, entendem-se pelo som de seu canto. Recorrem à aliança com seus iguais para viver. Ao diálogo. À Vida Comum. Nós, humanos, recorremos às armas. Miserere Nobis.

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