As Três Saudações da Paz

Dos Sermões de Santo Antônio

“Veio Jesus e, pondo-se no meio deles, lhes disse: A paz esteja convosco”. Tendo dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos se alegraram ao ver o Senhor. E Jesus lhes disse de novo: ‘A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio’” (Jo 20,19-20). É preciso notar, antes de tudo, que neste trecho do Evangelho é dito por três vezes “A paz esteja convosco” por causa das três pazes que Cristo restabeleceu: – entre Deus e o homem, reconciliando este último com o Pai por meio de seu sangue; – entre o anjo e o homem, assumindo a natureza humana e elevando-a acima dos coros dos anjos; – entre homem e homem, reunindo em si como pedra angular, o povo dos Judeus e o dos Gentios (pagãos). Observe-se também que na palavra PAZ (PAX em latim) há três letras que formam uma só sílaba. Com isso é simbolizada a Unidade e a Trindade de Deus. No “P” é indicado o Pai, no “A”, que é a primeira das vogais, é indicado o Filho que é a voz (o vogal) do Pai. No “X” que é consoante dupla, é indicado o Espírito Santo que procede de ambos (do Pai e do Filho). Quando, portanto, Jesus disse: “A paz esteja convosco”, ele nos recomendou a fé na Unidade e na Trindade. “Veio Jesus e se pôs no meio deles”. O centro é o lugar que compete a Jesus; no céu, no seio da Virgem, na manjedoura da grei e no patíbulo da cruz. No céu: “O Cordeiro que está no meio do trono”, isto é, no seio do Pai, “os guiará e os conduzirá às fontes de água da vida” (Ap 7,17), isto é, à saciedade dos gozos celestes. No seio da Virgem: “Exultai e cantai louvores, habitantes de Sião, porque grande é no meio de vós o Santo de Israel” (Is 12,6).

Ó bem-aventurada Maria, que és a figura dos habitantes de Sião, isto é, da Igreja, que na encarnação do vosso Filho fundaste o edifício da sua fé, exulta com todo o coração, canta com a boca o teu louvor: “Minha alma glorifica o Senhor!”, porque o grande, o pequeno e o humilde, o santo e o santificador de Israel está no meio de ti, isto é, em teu seio! Na manjedoura da grei: “Serás conhecido entre dois animais” (Hab 3,2 – Glossa). “O boi conhece o seu proprietário e o burro a manjedoura do seu dono” (Is 1,3). No patíbulo da cruz: “Crucificaram junto com Jesus outros dois, de um lado e de outro e Jesus no meio” (Jo 19,18). Veio, pois, Jesus e se colocou no meio deles. “Eu estou no meio de vós – nos diz São Lucas – como aquele que serve (22,27). Ele está no centro de todo coração. Está no centro porque dele, como do centro, todos os raios da graça se irradiam a nós que caminhamos ao seu redor e nos agitamos na periferia. Com tudo isso estão de acordo as palavras dos Atos dos Apóstolos: “Naqueles dias, Pedro, tendo-se levantado no meio dos irmãos, (estava reunido um grupo de quase cento e vinte homens) disse: “Irmãos…”, etc. e tudo aquilo que aconteceu para a eleição de Matias (cf. Atos 1,1-1). Cristo, ressuscitado dos mortos, colocou-se no meio dos discípulos.

Pedro que, antes de todos, tinha caído renegando-O, levantou-se no meio dos irmãos, indicando com isso a nós que, levantando-nos do pecado, nos colocamos no meio dos irmãos, porque no centro existe o amor que se estende seja ao amigo que ao inimigo. “Veio, pois, Jesus e se colocou no meio dos discípulos e disse: ‘A paz esteja convosco”.

É preciso lembrar que existem três tipos de paz. Em primeiro lugar, a paz do tempo sobre a qual está escrito no livro dos Reis que “Salomão esteve em paz com todos ao seu redor” (com os países limítrofes) (5,4). Segundo, a paz do coração, sobre a qual se diz: “Na paz eu me deito e logo adormeço” (salmo 4,9); e ainda: “A Igreja estava em paz em toda a Judéia, Galiléia e Samaria; crescia e caminhava no temor do Senhor, cheia do conforto do Espírito Santo” (Atos 9,31). Judéia quer dizer “confissão”, Galiléia “passagem” e Samaria “guarda”. Portanto, a Igreja, isto é, a alma fiel, encontra a paz nestas três coisas: na confissão, na passagem dos vícios às virtudes, na guarda do preceito divino e da graça recebida. Desse modo ela cresce e caminha de virtude em virtude no temor do Senhor; não um temor servil mas um afetuoso temor filial; e em toda tribulação sente-se cheia da consolação do Espírito Santo. Terceiro: a paz da eternidade, sobre a qual diz o salmo: “Ele construiu a paz em teus confins” (147,14). A primeira paz, tu deves ter com o próximo, a segunda contigo mesmo e assim, na oitava da ressurreição, terás também a terceira paz, com Deus no céu! Coloca-te, pois, no meio e terás a paz com o próximo. Se não estiveres no meio, não poderás ter a paz. Com efeito, na “circunferência” não há paz nem tranqüilidade, antes, movimento e volubilidade. Conta-se sobre os elefantes que, quando eles têm que enfrentar um combate, possuem um cuidado todo especial para com os feridos: fecham-nos ao centro do grupo junto com os mais fracos. Assim também tu: acolhe no centro do amor o próximo fraco e ferido. Como fez aquele guarda da cadeia de que se fala nos Atos dos Apóstolos que, tomando à parte Paulo e Silas naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os ferimentos, conduziu-os à sua casa, preparou-lhes de comer e ficou imensamente contente junto com toda a sua família por ter acreditado em Deus (cf. Atos 16,33-34). “Jesus colocou-se no meio dos discípulos e lhes disse: ‘A paz esteja convosco!’ Tendo dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado”. Lucas escreve que Jesus disse: “Olhai as minhas mãos e os meus pés: sou eu mesmo!” (24,39).

Conforme meu parecer, o Senhor mostrou aos apóstolos as mãos, o lado e os pés por quatro razões. Primeira, para mostrar que tinha realmente ressuscitado e tirar-nos assim qualquer dúvida. Segunda, porque a pomba, isto é, a Igreja ou mesmo a alma fiel pudesse fazer seu ninho nas suas chagas como que em profundas fendas e assim pudesse proteger-se da vista do gavião que trama ciladas para pegá-la. Terceira, para imprimir em nossos corações os sinais extraordinários da sua paixão. Quarta, mostrou-lhes para que também nós, participando de sua paixão, não O preguemos nunca mais na cruz com os cravos dos nossos pecados. Mostrou-nos, portanto as mãos e o lado dizendo: “Eis as mãos que vos plasmaram, como foram transpassadas pelos cravos! Eis o peito do qual vós, fiéis, Igreja minha, fostes gerados, como Eva foi procriada do costado de Adão, eis como foi aberto pela lança para abrir-vos as portas do paraíso, guardada pela espada flamejante do anjo querubim. O vigor do sangue que jorra do coração de Cristo, afastou o anjo e tornou inócua a espada e a água apagou o fogo. Portanto, não queirais crucificar-me de novo e profanar o sangue da aliança em que fostes santificados e ultrajar o Espírito da graça. Se prestares bem atenção a estas coisas e as escutares, terás paz contigo mesmo, ó homem! Por isso, o Senhor, após ter-lhes mostrado as mãos e o lado, disse de novo: “A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou” à paixão, embora me ame, assim também eu, com o mesmo amor, vos envio ao encontro daqueles sofrimentos aos quais o Pai me enviou.

Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv. (Sermões de Domingos e Festas, volume I, Pádua, 1979, Edição Mensageiro de Santo Antônio, pp. 235ss).

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