A agressão a Padre Júlio Lancellotti é reflexo da atual desumanização da Sociedade

Aconteceu ontem, 14 de setembro, no Centro de Acolhida, Zona Leste de São Paulo, grave agressão da GCM – Guarda Metropolitana de São Paulo – aos moradores de rua que se encontravam na referida instituição. Noticiamos o fato em texto anterior. As reações, assim como ausência delas, nos motivou uma série de reflexões. O acontecido com Padre Júlio Lancellotti não implica somente a ele, os funcionários do Centro de Acolhida e seus usuários. É uma dor maior. Fere a todos nós.

Em parte, o modus operandi da GCM é reflexo de uma mentalidade. Pensamento de que o pobre será sempre suspeito. Culpado. Pelo quê? Não se sabe. Talvez por ferir nossos olhos pelo externar da realidade. Uma realidade que desejamos nos alienar dela. Enquanto corremos as maratonas do ter, pelo ter, do poder, pelo poder, há pessoas nas ruas, caídos em sua extrema pobreza. Nossa sede compulsiva pelo consumo, contrasta com a extrema pobreza da maioria dos Brasileiros. Caminhando pelas ruas, extasiados pelo fetiche do consumo,  deparamo-nos com as calçada pilhadas de moradores de rua. Sem alimento certo, sem acolhida. Esta disparidade pode incomodar. A reação natural não é a solidariedade. É o extermínio. Que se afaste de nossos olhos tanta pobreza. Não a permitimos.

Há uma corrente de purificação das castas. Pessoas que defendem o dinheiro como símbolo do ser. Próprias a pessoas de bem, abençoados por Deus. A pobreza é reflexo de uma maldição adquirida. Ledo engano. Já vimos pregadores dizer que aquele que serve verdadeiramente a Deus, é próspero. “Deus não permite a miséria a seus filhos”. Ora, se esta fosse uma constatação teologicamente séria, anularia grande parte da Bíblia. Contradição com a Salvação que vem por Jesus. Ele mesmo se outorga a missão de “anunciar a Boa Nova aos pobres” (cf. Lc  4,18ss). Com isso, Jesus afirma sua opção pelos empobrecidos e não dirige uma maldição a eles. Ao contrário, nasce entre eles, vive como um deles. Morre despido na cruz. Jesus se fez pobre, entre os pobres. Ainda mais: temos as Bem Aventuranças que começam com os pobres, como aqueles que serão possuidores do Reino dos Céus (cf. Mt  5,1ss).

Fora dos seguimentos religiosos, percebemos que grande parte dos responsáveis pela Justiça Social, tendem a legalizar, camuflando o Direito por análises deturpadoras da realidade. Propagam programas de inclusão que, em grande parte, institucionalizam a assistência social, embrulhando-a  em uma série de critérios e burocracias, fazendo com que o pobre não tenha atendimento e, pasmemos todos, ainda seja culpado por não atender aos critérios. Quando alguém questiona este sistema, é logo acusado de vitimizar os sofredores. Já ouvimos palavras absurdas tais como “não são os coitadinhos que pensamos”. “Não são ajudados porque não querem”. Sabemos que estas considerações não passam de argumentos hipócritas de um poder público omisso e uma elite narcisista. Um sentimento que foge de seu conceito original estético, rumo a um processo de destruição. Destruir tudo que ameaça esta vaidade, este senso de vida bela, baseado no possuir, no poder. A casta dos ricos, indignada com a existência dos pobres. Dialética bem refletida a tempos por Gilberto Freire, na célebre obra “Casa-grande e Senzala”.

Quais caminhos tomar? Certos não são os adotados pela Administração de São Paulo que odeia os pobres, destinando-os seu projeto de destruição. Estes pobres são agredidos por sua milícia de extermínio. Aqueles que se aliam aos oprimidos, são também agredidos; como aconteceu com Padre Júlio Lancellotti.

A agressão deste dia 14 de setembro aos moradores de rua, ao padre e seus colaboradores é um marco histórico. Que virá após isso? Nosso silêncio de conformismo, enquanto a sociedade caminha para uma afirmação das castas, em preterimento aos pobres, ou nossa voz, por hora embargada, sairá fluida, dando um basta a esta ante realidade? Este desconstruir da humanidade?

Nós que somos Igreja, continuaremos cegos pela ideologia de que evangelizar é cuidar das coisas celestes, dos sacramentos, ou nos convenceremos de que todos os desafios sociopolíticos que viveram os profetas e até mesmo Jesus, são atuais? Há ainda opressores e oprimidos. Exploradores e explorados. Morte, ameaçando a vida.

Acordemos, enquanto Igreja. Ou seremos profetas, ou nos alistaremos nas fileiras dos Fariseus, em sua hipocrisia.

Hermes Abreu

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