“Quando eu morrer, vou pro céu?” – Uma reflexão sobre a atual crise em nosso país, à luz da História de Oscar Romero

Por Hermes Abreu

Lembrei-me hoje do filme Romero. História do arcebispo Salvadorenho que se tornou mártir por defender a vida dos pequenos e pobres.

Em uma cena marcante, uma moça, jornalista e militante dos Direitos Humanos, de nome Lúcia, pergunta ao arcebispo Romero: “quando eu morrer, vou pro céu? É tão ruim aqui…” Diálogo forte, para espíritos de discernimento. Difícil quando a morte e suas questões escatológicas, se tornam a única esperança.

Discursos da Teologia dos Novíssimos à parte, a questão latente neste diálogo me reporta à realidade em que vivemos. Em uma concreta analogia, El Salvador caiu em mãos de ditadores, por ter a Nação acreditado na força das armas, como solução às diversas crises que assolavam o país. Em resposta à tentativa de se consolidar economia e estrururar a sociedade pela força e sua pseudo credibilidade, o resultado foi o inverso: mais fome, mais miséria, mais direitos negados. O povo não tinha pão e bem estar, continou a não os ter e ainda era perseguido, torturado, assassinado,  quando lutava por seus direitos. A força, a marcialidade que prometia segurança, estrutura, moral, entre outras messiânicas conquistas; trouxe opressão.

Historicamente, a força nunca solucionou crises políticas. A força é alimentada pelo poder. O poder, como um avassalador narcótico moral, gera sede de mais poder. E esta sede é saciada com sangue. Sobremaneira, o sangue dos mais fracos. Estes mesmos que acreditaram antes que só pulsos fortes poderiam salvar o país.

A questão hoje se repete em nossa terra. Mutatis Mutandi, grande parte do eleitorado brasileiro, não mais acredita na construção do país pela reflexão. Não mais esperamos alguém academicamente preparado e eticamente recomendável para governar o Brasil. O nome que é defendido por unhas e dentes pelas massas, é o de um homem que afirma, aos gritos, ser a morte solução para muitos de nossos problemas. Além de desmerecer as mulheres, rechaçar as minorias, agredir moralmente seus rivais ideológicos. Muito barulho, pouca reflexão. Também assim o foi em El Salvador. Em certo sentido, também a Alemanha caiu na mesma armadilha com Hitler.

E nós? Também seremos seduzidos pelos discursos de ódio como método e meio de mudança? Apoiaremos aquele que promete morte, como projeto de construção?

Passarão os anos. Quando olharmos estes dias já como passado, quando a morte por um sistema opressor for eminente a todos que se permitirem pensar, olharemos nostálgicos de nossa liberdade e nos questionaremos: “quando eu morrer, vou pro céu?”. Sim, almejaremos o céu pois o ódio reinante  neste país, nos dará o prelúdio do que é o inferno. Carne, em nossa própria carne oprimida.

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