Roraima em Chamas

Por| Hermes Abreu

Neste dia 18 de agosto, Boa Vista, Capital de Roraima, viveu seu dia de inferno. Ataques generalizados aos imigrantes venezuelanos condicionaram a cidade à semelhança de campos de guerra.

Sabemos o quão delicada se tornou a situação da cidade de Boa Vista após a imigração de venezuelanos, diáspora da crise em seu país, motivada pela situação do atual governo. Não abandonaram suas terras por buscar um mundo novo. Riquezas, prosperidade. Vieram refugiar-se da fome, miséria.

Boa Vista é cidade fronteira. De fácil acesso, motivados pelo desespero, nossos vizinhos aqui chegam. O que buscam? Alimento, abrigo, esperança. Nossos compatriotas, nativos do extremo norte, têm atendido, por esforços pessoais de ONGs, pessoas de boa vontade, organizações religiosas, as necessidades destas pessoas. O governo local nega a possibilidade de estrutura para comportar tantos imigrantes. Não há abrigos suficientes. Muitos se deixam estar pelas ruas. Acampados. A dignidade humana afrontada em seus mais elementares aspectos.

Além do mal – do desafio – em si, há aqueles que vêm os “visitantes” como inoportunos. Amaldiçoam-lhes por sua indevida presença. Culpam-lhes por todo mal ali acontecido. A xenofobia manifesta de forma patológica.

Se a situação da pobreza se agravou, atribui-se sim ao aumento populacional. Entretanto, Roraima conta em seu histórico e estatísticas, grande dificuldade em manter o bem estar de sua população, mesmo nativa. Políticas públicas deficientes, serviços básicos sonegados. Além do coronelismo político, a corrupção, criminalidade avançada. Agora, tudo é culpa dos venezuelanos. Outrossim, sabemos que este estado é campeão em feminicídio. Além do tráfico de drogas com conflitos tão violentos quanto o Rio de Janeiro.

Entretanto, como sempre acontece, há que se ter o Judas a malhar no sábado de aleluia. Há que se culpar alguém pelos fracassos, às vezes propositais, dos governos. Ao povo se oferece alguém em sacrifício expiatório, pelas faltas de anos de administração corrupta, desumana.  A história sempre se repete. O povo precisa de uma Madalena para apedrejar, para que o senso de justiça, a resposta da lógica satânica do capitalismo, faça sentido.

Houve um crime. Fato. Quantos crimes não acontecem em nosso cotidiano? O fato de o crime ter sido cometido por Venezuelanos, faz com que a população tome sobre si todos os poderes. De acusador, juiz, carrasco. E malha-se o Judas. E apedreja-se Madalena. É de nossa natureza. A crueldade dos covardes.

E nós, cristãos? Empunhamos nossas pedras? Acusamos estas pessoas? Pensamos ser indigno, inadmissível, saírem de seu país e vir aqui cometer crimes? Estamos contaminados pela xenofobia, pelo senso cruel de justiça? Fácil ser o braço da justiça quando se trata de famintos, excluídos, marginalizados. Gostaria de ver essa mesma coragem de massacrar pobres, sem pátria, na tentativa de banir o crime organizado dos morros do Rio de Janeiro. Massacrar o migrante é uma das coisas inadmissíveis descritas no Pentateuco. Biblicamente, esta atitude de hoje provoca lágrimas no coração de Deus, pois, ele sempre toma o partido dos mais fracos. Basta ouvir o Profeta Amós.

Em nome dos Brasileiros de Boa Vontade, peço perdão aos venezuelanos. Por nossa covardia, nossa falta de coragem em assumir nossa impotência diante do problema.  Nossa hipócrita lógica de valores.

Venezuelanos, nos perdoem. Suas vidas nos foram confiadas e lhes oferecemos paus e pedras. Sangue e morte. Uma Roraima em chamas.

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