Eucaristia: Uma nova prática e uma nova teologia

Quase quarenta anos atrás, no dia 4 de dezembro de 1963, foi promulgada a constituição conciliar Sacrossanctum Concilium (SC), sobre a Sagrada Liturgia, primeiro documento a ser aprovado na aula conciliar. Passaram-se quarenta anos. O que a SC e a renovação litúrgica conciliar que dela nasceu trouxeram de novo o que diz respeito à Eucaristia? Primeiro há uma série de mudanças “externas”, bem perceptíveis, na maneira de celebrar a missa e que foram sendo introduzidas pouco a pouco. Os mais antigos entre nós certamente lembram disso. Mas é importante perceber que, nos alicerces da nova maneira de celebrar, se esconde uma nova maneira de compreender a Eucaristia: os princípios teológico-litúrgicos nos quais se apóiam estas novas práticas litúrgicas. Por isso, neste artigo, vamos começar com os alicerces e depois perceber o resto do edifício. Ou seja, vamos lembrar as mudanças mais significativas na teologia da Eucarística: 1) o sujeito da ação eucarística é a comunidade eclesial, povo sacerdotal: 2) a ação eucarística consiste em comer e beber juntos em ação de graças; 3) a Eucaristia é celebração do mistério pascal, memorial da morte e ressurreição do Senhor Jesus; 4) a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística formam um só ato de culto. Ao abordar cada um destes aspectos teológicos, serão apontadas mudanças na maneira de celebrar que delas decorrem.

Antes disso, convém perguntar: qual foi a motivação fundamental e onde o Concílio encontrou embasamento para fazer mudanças tão profundas na Eucaristia, que é o Sacramento central da fé cristã? O Papa João XXIII, que inesperadamente convocou o concílio, queria renovar a Igreja católica, preparando um caminho para a unidade de todas as Igrejas cristãs. Por isso, chamou o Concílio de “ecumênico” e convocou observadores das outras Igrejas, que deram contribuições muito valiosas. A melhor maneira que encontrou para buscar a unidade era a “volta às fontes”. No que diz respeito à Liturgia, mais de sessenta anos de movimento litúrgico, bíblico e ecumênico, com serias pesquisas históricas, bíblicas, patrísticas e estudos teológico-litúrgicos estavam possibilitando essa reflexão comum entre a Tradição Litúrgica comum a todas as Igrejas. A preocupação era com a fidelidade ao mandamento de Jesus Cristo.

1. O sujeito da Ação Eucarística é a comunidade eclesial, povo sacerdotal.

Quem celebra a Eucaristia?

“As Ações Litúrgicas não são ações privadas, mas Celebrações da Igreja, que é o ‘Sacramento da Unidade’, isto é, o povo santo, unido e ordenado sob a direção dos bispos. Por isso, as Celebrações pertencem a todo o corpo da Igreja, e o manifestam e afetam…” (SC 16).

“Deseja ardentemente a mãe Igreja que todos os fiéis sejam levados àquela plena, cônscia, e ativa participação que a própria natureza da Liturgia exige e a qual, por força do Batismo, o povo cristão, ‘geração escolhida, sacerdócio real, gente santa, povo de conquista’ (1Pd 2, 9; cf. 2, 4-5), tem direito e obrigação”. (SC 14)

Portanto, quem celebra a Eucaristia é a comunidade eclesial, o povo de Deus reunido em assembléia local. A base teológica está na participação no sacerdócio de Cristo pelo Sacramento do Batismo. Nele somos um povo sacerdotal. Usando uma imagem cara a São Paulo, indissoluvelmente unida a ele, que é Cabeça deste “corpo”, na unidade do Espírito Santo. Outra imagem que expressa a estreita relação entre Cristo e sua Igreja, é a imagem da relação entre esposo e esposa; trata-se de uma relação mística, mais que institucional. E é celebrando a Eucaristia, “Sacramento da Unidade” (termo retomado da patrística e que volta com insistência na forma eucarística conciliar), que se expressa e se aperfeiçoa o ser da Igreja. É famosa a afirmação: a Igreja realiza a Eucaristia e a Eucaristia realiza a Igreja.

Isto implica diretamente uma mudança da relação povo/clero na Celebração da Eucaristia. Até o Concilio, o padre (o “sacerdote”) celebrava a missa para o povo; o povo assistia, mudo, recolhido em suas devoções particulares, cad um(a) por si. Na perspectiva do Concílio, o padre serve a um povo, todo ele sacerdotal; preside uma Assembléia Celebrante. Seu sacerdócio, ministerial, não está acima do sacerdócio da comunidade, mas a serviço do mesmo. O sacerdócio dos batizados não se origina do sacerdócio ministerial; ambos deveriam do mesmo e único sacerdócio de Jesus Cristo.

Por isso, todo o povo sacerdotal, unido a Cristo, no Espírito Santo, realiza o memorial, alimentando-se da Palavra de Deus, orando em comunidade, dando graças, oferecendo o Sacrifício de Louvor, comungando da mesa do Senhor… A SC 48 insiste: “… apreendam a oferecer-se a si próprios oferecendo a Hóstia Imaculada (o próprio Cristo), na só pelas mãos do sacerdote, mas juntamente com ele…”. Eis uma grande novidade.

No entanto, a assembléia não deixa de ser hierarquicamente constituída, organizada: alem dos ministros ordenados que presidem a Eucaristia, há os(as) cantores(as), leitores(as), cantores(as), instrumentalistas, acólitos, “comentaristas”… que todos(as) são agora considerados(as) verdadeiros Ministérios Litúrgicos a serviço da assembléia (SC 9). Cada qual assume sua função específica, como as várias partes num corpo humano (SC 28).

A palavra-chave que volta bem umas cinqüenta vezes ao longo da SC é “participação” de todo o povo na Liturgia. Entendido em sentido teológico, participação é comunhão em Cristo, participação em sua missão messiânica, em sua morte e ressurreição, em sua relação com o Pai, no Espírito Santo, e isso pela participação nos sinais sensíveis, pela participação nas ações rituais. Para que seja um ato verdadeiramente humano, essa participação há de ser também “consciente”. Daí a necessidade de formação litúrgica todo o povo de Deus, para que não assistam como estranhos ou espectadores mudos… (cf. SC 47), mas como agentes sujeitos da Ação Eucarística.

Quais são mudanças que estas afirmações teológicas trazem para a maneira de celebrar a Eucaristia? Apontemos as mais significativas, realizadas ao longo da reforma litúrgica conciliar:

• O altar é afastado da parede e o padre celebra de frente para o povo.

• O banco de comunhão que separava o povo do presbitério e o altar é tirado.

• Além do presidente, assembléia eucarística conta com o ministério dos(as) leitores(as), acólitos, cantores(as) instrumentistas, equipe de acolhimento…

• Os Ritos Iniciais são reformulados em vista de sua nova função: constituir a Assembléia Litúrgica, formar o “Corpo Comunitário” celebrante; o Rito Penitencial deixa seu caráter devocional e se torna um Rito Comunitário.

• O latim é substituído pela língua de cada povo; fala-se na necessidade de se usar uma linguagem (verbal, gestual, musical…) na cultura da comunidade celebrante.

• O povo todo se encarrega das respostas no diálogo com o presidente, que antes eram ditas só pelos coroinhas.

• A maioria dos cantos, são cantados por todos(as) (não mais só pelo coral), na língua do povo; nascem novos repertórios.

• O padre não repete ou lê individualmente os cantos cantados pelo coro e pelo povo; canta junto com a assembléia.

• As oferendas (pão, vinho, coleta de dinheiro…) são trazidas pelo povo, ou alguns membros do mesmo.

• A Oração Eucarística é dita pelo presidente em voz alta para o povo poder participar, enquanto antes cada qual acompanhava esta Oração em silêncio, numa atitude de devoção e reverência ao Santíssimo Sacramento, cada um por si. O povo intervém com as respostas e aclamações. O “Amém” final da Oração Eucarística ganha um destaque, como ratificação da Oração presidencial pela assembléia.

• Na Oração Eucarística, há uma “Epiclese de Comunhão”, invocando a vinda do Espírito Santo sobre a comunidade reunida, para que se torne sempre mais Corpo de Cristo, ao participar da mesa do Senhor. Principalmente na Epiclese da Oração Eucarística nº 2, aparece claramente a ligação estreita entre a Comunhão Sacramental, o Espírito Santo e o dom da unidade: “E nós vos suplicamos que, participando do Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo num só corpo”.

• É reintroduzido o Abraço da Paz e a Fração do Pão, expressando a relação que existe entre o Corpo de Cristo que se recebe no pão e no vinho e o Corpo de Cristo e o Corpo de Cristo que é a comunidade eclesial. Em 1Cor 10, 16-17, Paulo estabelece a relação entre o comer juntos o pão partido e a unidade da comunidade como Corpo de Cristo; inclui nesta relação também o Cálice da Benção: “O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o Sangue de Cristo? O pão que participamos não é comunhão com o Corpo de Cristo? Já que há um único pão, nos, embora muitos somos um só corpo, visto que todos participamos do único pão”.

• A comunhão não é uma ação intimista, devocional, cada um rezando individualmente, com o rosto entre as mãos; é uma ação comunitária: todos caminham em procissão, cantando juntos, expressando sua comum-união em Cristo; continuam cantando, inclusive depois de ter recebido o Pão e o Vinho consagrados.

• Podemos apontar ainda a reintrodução da concelebração eucarística: vários padres celebram juntos a mesma Eucaristia, em vez de cada um celebrar individualmente, na mesma igreja, em altares diferentes, como era costume antes do Concilio. Na tradição das Igrejas do oriente, a concelebração expressa a unidade da Igreja; é o bispo que preside, e todos os padres presentes concelebram. Na tradição das Igrejas do ocidente, a concelebração tem o intuito de expressar a unidade do sacerdócio.

2. A Ação Eucarística consiste em comer e beber juntos em Ação de Graças.

Na renovação conciliar, redescobrimos a Eucaristia como ação. Em que consiste a Ação Eucarística? É preciso voltar ao mandamento do Senhor, preferido por Paulo e Lucas: “Façam isto para celebrar a minha memória”! Nesta frase vêm indicados tanto o sentido da ação (para celebrar a memória de Jesus) como a própria ação (façam isto). É preciso fazer o que Jesus fez na ultima ceia: tomou o pão, depois tomou também o vinho, deu graças, partiu e deu a seus discípulos, dizendo… Desta forma, encontramos a estrutura básica da Liturgia Eucarística:

a) Preparação das Oferendas (preparar a mesa, trazer o pão e o vinho que são símbolos de nossas vidas);

b) Oração Eucarística (que é ao mesmo tempo Ação de Graças e oferta – em outras palavras: Sacrifício de Louvor);

c) Fração do Pão e Comunhão (que é participação naquilo que foi proclamado na Ação de Graças, ou seja, participação na morte-ressurreição do Senhor, participação em seu Mistério Pascal).

Quais são as mudanças que estas afirmações teológicas trazem para a maneira de Celebrar a Eucaristia? Apontemos as mais significativas, realizadas ao longo da reforma litúrgica conciliar:

• É preciso distinguir: apresentação das oferendas (trazendo o pão e o vinho) e a oferta de fato, na Oração Eucarística (“Nós vos oferecemos, ó Pai, o Pão da Vida e o Cálice da Salvação…”). A primeira é simples preparação para a oferta que vem depois.

• A Igreja sempre teve uma preocupação com a fidelidade a fala de Jesus na Última Ceia. Jesus deu graças; pronunciou a benção da mesa sobre o pão e o vinho. Por isso toda a Prece Eucarística – a grande ação de graças – que dever ser considerada, e não apenas a ultima ceia.

• O gesto da “fração do pão” é um gesto constitutivo da Eucaristia, deixado por Jesus; por si só, o nome “fração do pão” designava a Eucaristia nas comunidades primitivas (cf. At 2, 46; 20, 7). O gesto exige que use pão que possa ser partido e repartido entre todos(as).

• O ato de comungar é parte integral da Celebração. Todos(as) participam da Eucaristia, comendo do pão e bebendo do vinho “eucaristizados”, sobre os quais foi pronunciada a Bênção Eucarística, segundo a tradição que nos vem do Senhor.

• A comunhão é real; trata-se de comer (e beber) e não pode ser mais reduzida a “comunhão espiritual”.

• O povo – e não somente o padre – comunga durante a missa, e não antes ou depois, como era costume antes do Concílio.

• Progressivamente é reintroduzida a Comunhão “Nas Duas Espécies” para todo o povo, isto é, no Pão e também no Vinho (bebendo do cálice ou molhando o pão no vinho).

• A atitude para receber a comunhão: não mais de joelhos (no “banco de comunhão” que separava o presbitério e a nave da igreja), mas de pé (em atitude de ressurreição, de caminhada, de compromisso). Todo mundo responde “Amém” ao receber o Pão e o Vinho consagrados.

• A comunhão pode ser recebida na mão e não necessariamente na boca.

3. A Eucaristia é Celebração do Mistério Pascal, Memorial da Morte e Ressurreição do Senhor.

A Aclamação Memorial indica o sentido central da Ação Eucarística: “Eis o mistério de nossa fé! Anunciamos Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!” Pela Ação de Graças pronunciada sobre o pão e sobre o cálice com vinho (que depois serão repartidos entre todos(as)), atualizamos ritualmente, trazemos presente simbólico-sacramentalmente, a vitória e o triunfo da morte de Jesus, até que ele venha. Aquilo que aconteceu uma vez por todas na ultima ceia e na morte de Jesus na cruz, acontece hoje par nós, em mistério, no sacramento, toda vez que realizamos, como corpo eclesial, a Ação Eucarística, pela força do Espírito Santo que invocamos sobre o pão e o vinho, assim como sobre a comunidade reunida.

Participando, somos associados(as) a morte ressurreição de Jesus. Por ele, com ele e nele, nossas vidas e a vida do mundo são entregues juntamente com a entrega confiante que Jesus faz de sua vida (até a morte) nas mãos do Pai, para termos parte em sal ressurreição. Em Cristo, todas as nossas “mortes” são chamadas à transformação pascal. Por isso, “…a Igreja nunca deixou de reunir-se para Celebrar o Mistério Pascal…” (SC 6). Pela Ação Memorial, a Eucaristia é ação do próprio Cristo Glorificado, presente e atuante com seu Espírito na comunidade reunida, fazendo-nos passar da morte à vida.

No entanto, é importante notar a dimensão escatológica. Na Eucaristia, Cristo está presente, mas ao mesmo tempo continuamos aguardando “até que Ele venha”, até que a morte seja vencida pela vida, até que o Reino de Deus seja plenamente estabelecido sobre toda realidade. Assim, Eucaristia é também sacramento do Reino de Deus.

Na época, foi uma grande novidade usar o termo “Mistério Pascal” como conceito fundamental para a Eucaristia. Lembra-nos Vagaggini que muitos padres conciliares estranharam isso, porque somente a paixão e morte de Jesus eram considerados “meritórios” da graça da salvação. E se formos perguntar a maioria dos “participantes”de nossas assembléias eucarísticas a que se referem às palavras: “Eis o Mistério de nossa Fé!”, muitos dirão que trata da transformação do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo… Não associam Eucaristia com o Mistério da Páscoa.

Quais são as mudanças que estas afirmações teológicas trazem para a maneira de Celebrar a Eucaristia? Apontemos as mais significativas, realizadas ao longo da reforma litúrgica conciliar:
• A Celebração Eucarística mais importante é a Missa Dominical. É Celebração do Mistério Pascal, Mistério da nossa Fé, no dia da Ressurreição do Senhor. É expressão culminante de toda a vida crista, no gozo da alegria pascal e no desejo ardente de ver o Reino realizado. Por isso, deve receber um destaque em relação a celebração de outras missas em outras ocasiões.

• No centro da Oração Eucarística, foi introduzida a Aclamação Memorial “Eis o Mistério da fé! Anunciamos, Senhor…” (ou outra semelhante).

• Na Oração Eucarística temos agora um invocação (epiclese) implorando a atuação transformadora sobre o pão e o vinho: “Santificai, pois, estas oferendas, derramando sobre eles o vosso Espírito Santo, a fim de que se tornem para nós o Corpo e o Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo”.

• Foi eliminada a elevação da Hóstia e do Cálice no momento da Narrativa da Instituição (a assim chamada “consagração”), até então considerado um dos pontos altos de devoção do povo. Também não há mais elevação na preparação das oferendas (porque não se trata de uma oferta). A única elevação é agora no final da Oração Eucarística, quando se proclama: “Por Cristo, com Cristo e em Cristo… Amém!”. Neste gesto culmina toda a Oração Eucarística, como oferta de louvor.

• Há uma estreita relação estreita entre Oração Eucarística e a Fração do Pão e a distribuição da Sagrada Comunhão; por isso, devemos comungar do Pão (e do Vinho) consagrados naquela Missa e não com Hóstias tiradas do sacrário (a não ser em casos excepcionais): “Vivamente recomenda-se àquela participação mais perfeita na Missa, pela qual os fiéis (…) comungam do Corpo do Senhor do mesmo Sacrifício”. SC 55: “É muito recomendável que os fiéis recebam o Corpo do Senhor com Pão consagrado na mesma Missa, e nos casos previstos, participem do Cálice, par que assim também através dos sinais a comunhão melhor apareça como participação do Sacrifício que se está efetivamente celebrando”. (Instrução Geral do Missal Romano, 1969, nº 56h).

• Não se deve Celebrar a Eucaristia “com o Santíssimo exposto”, como se fazia antes do Concílio. Também não tem sentido dar a bênção com o Santíssimo Sacramento no final da Missa; a maior “bênção” é a própria Celebração da Eucaristia, com a Comunhão Eucarística. Bênção com o Santíssimo é considerado “Culto Eucarístico fora da Missa”, assim como Hora Santa de adoração.

4. Liturgia da Palavra e Liturgia Eucarística forma um só Ato de Culto.

A renovação conciliar recolocou a Sagrada Escritura no seu devido lugar nas Celebrações Litúrgicas. No nº 24 lembra sua “máxima importância”; direta ou indiretamente está presente nas Leituras, na homilia, nos Salmos, Orações e Hinos, nos gestos e Ações Simbólicas. O nº 35 pede uma ampliação das partes da Sagrada Escritura lida principalmente nas Liturgias Dominicais.

O Concílio acentua principalmente o nexo entre Palavra e Sacramento e desta forma faz um enorme passo em direção as Igrejas da Reforma Protestante. Todos os Sacramentos são “Sacramentos da Fé” (SC 59); a fé supõe escuta da Palavra. Mais especificamente sobre a Missa, diz-se que “… a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística estão tão estreitamente unidas que formam um único Ato de Culto” (SC 56). Devemos entender isso na perspectiva da Celebração da Aliança: a Liturgia da Palavra é o momento do diálogo, do Contrato da Aliança, que será selado a seguir na Liturgia Eucarística, que é o Rito da Nova Aliança.

A Liturgia da Palavra deixa de ser uma pregação catequética, para assumir característica sacramental: Cristo está presente pela sua Palavra “… pois e ele mesmo que fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na Igreja…” (SC 7). Por isso, fala-se da “Mesa da Palavra de Deus”, ricamente preparada para alimentar o povo de Deus (SC 51), assim como se alimenta da Mesa da Eucaristia.

Quais são as mudanças que estas afirmações teológicas trazem para a maneira de Celebrar a Eucaristia? Apontemos as mais significativas, realizadas ao longo da reforma litúrgica conciliar:

• Devemos participar de toda a Missa (SC 56). (Lembremos que antes do Concilio, bastava chegar antes do “ofertório” para cumprir preceito dominical).

• Ouvimos três leituras bíblicas em vez de duas nas Missas dominicais e temos um Lecionário com um ciclo de três anos em vez de um ano só. Portanto,

• Volta o Salmo Responsorial.

• Volta a Homilia, obrigatória aos domingos e dias de guarda.

• Voltam também as Preces dos Fiéis.

• A Homilia faz o gancho entre leituras e a vida, mas também entre as leituras e a Liturgia Eucarística, na qual se celebra o Mistério de Cristo ao longo de todo o Ano Litúrgico.

• Reaparece o Ambão, ou Estante da Palavra, de onde é anunciada a Palavra de Deus nas Leituras, no Salmo, na Homilia, e de onde se fazem também as preces e o ‘Exulte…’ da Vigília Pascal.

• Redescobre a relação do Prefacio e do Canto de Comunhão como Evangelho do dia.

Confrontando com nossa prática

De nada adianta conhecer a Teologia da Eucaristia e as exigências celebrativas que dela decorrem, se isso não nos leva a uma nova prática. Por isso, vai aqui a sugestão: confrontem o que foi dito neste artigo com a prática de sua comunidade:

Em que pé estamos? O que já assimilamos da teologia e da prática do Concílio e o que não? Quais são os resquícios da teologia eucarística pré-conciliar? Que providências vamos tomar para adiantar o passo?

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Bibliografia Consultada:

ARDAZÁBAL, J. A Eucaristia, In: BOROBIO, Dionísio (dir.). A Celebração na Igreja. V. 2, Sacramentos. São Paulo, Loyola, 1988, pp. 145-357.

CONGAR, Yves. L’ “Ecclesia”, ou communauté chrétienne, sujet intégral de 1’action liturgique. In: JOSSUA, J.-P. & CONGAR, Y. La liturgie après Vatican I; bilan, études, prospective. Paris, Éd. Du Cerf, 1967, Coll. ‘Unam Sanctam, 66, pp. 241-82.

DE CLERCK, Paul. Adoration Eucharistique et Vigilance Théologique. LDM, Paris, 255: 65-79, 2001/ 1.MAZZA, Enrico. L’ Action Eucharistique; origine, développemente, interpretation. Paris, Cerf, 1999. (Título Original: L ‘eucaristia nella storia; genese del rito e sviluppo dell’ interpretatione, 1996).

POWER, David. The Eucharistic Mystery; Revitalizing the Tradition. Dublin, Gill and Macmillan, 1992.

VISENTIN, P. (Eucaristia:) Mistero unico e totale: sacrificio – comunione – presenza. In: Culmen et Fons; raccolta di studi di liturgia e spiritualità. V. 1 Mysterium Christi ab ecclesia celebratum. Padova, Edizioni Messagero Padova, 1987 (Caro Salutis Cardo, Studi, 3), pp. 126-41.

VAGAGGINI, C. Vista panorâmica sobre a Constituição Litúrgica. In: BARAÚNA, G. (ed.) A Sagrada Liturgia renovada pelo Concílio; estudos e comentários em torno da Constituição Litúrgica do Concílio Vaticano II. Petrópolis, Vozes, 1964, p. 127-167.

Este texto foi publicado na Revista de Liturgia nº 172 (Ir. Pias Discípulas do Divino Mestre) Edição de Julho/Agosto de 2002.

In: https://cnlbleste2.wordpress.com/2018/07/18/eucaristia-uma-nova-pratica-e-uma-nova-teologia/

 

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