Livros de Tobias, Judite e Ester

Os livros de Tobias, Judite, Ester e 1-2 Macabeus formam um conjunto que não se encaixa na história antes do exílio nem imediatamente após. A rigor, só poderíamos considerar histórico o primeiro livro dos Macabeus.

Tobias, Judite e Ester são novelas ou romances. Não refletem acontecimentos históricos. Querem mostrar situações típicas dos judeus na Palestina (Judite) ou fora (Tobias e Ester). No entanto, por trás da ficção, apresentam profunda análise da situação histórica e das possibilidades que os judeus encontraram em determinado contexto. Embora não sejam história propriamente dita, servem de modelo para analisar em profundidade certas situações reais.

Os dois livros dos Macabeus apresentam os acontecimentos que se desenvolveram entre 175 e 134 a.C. O primeiro, mais sóbrio e abrangente, relata os fatos a partir do ponto de vista mais objetivo e segue uma cronologia ordenada. O segundo se limita a poucos fatos entre 175 e 161 a.C., com a intenção de mostrar o significado religioso da resistência judaica. Seu estilo é de crônica elogiosa sobre os heróis da fé, mostrando as bases para uma reflexão sobre o martírio.

TOBIAS

 O livro de Tobias foi escrito pelo ano 200 a.C. Apesar das aparências, não conta uma história real, pois os acontecimentos aí descritos dificilmente se enquadram na história desse período. O livro pertence ao gênero sapiencial e é uma espécie de romance ou novela, destinado a transmitir um ensinamento.

O autor está preocupado em apresentar o exemplo de um judeu justo e fiel a Deus, mostrando que a verdadeira sabedoria, caminho para a fidelidade, consiste em amar a Deus e obedecer à sua vontade (mandamentos), aconteça o que acontecer.

Para que foi escrito este livro? Sabemos que nesse tempo o império grego dominava todo o Oriente Médio, inclusive a Palestina. Além do domínio político e da exploração econômica, os povos dominados sofrem também a influência da cultura, religião e costumes gregos, ficando ameaçados na própria identidade.

É precisamente com a identidade do povo judeu que o autor está preocupado. Principalmente dos que vivem fora da Palestina. Por isso o livro procura estimular e fortalecer a fidelidade e confiança, levando-os a redescobrir e  revalorizar a fé, tradições e valores de Israel.

A finalidade do livro, portanto, é ensinar. Destaca-se, entre outras coisas, a descoberta da providência divina na vida cotidiana (arcanjo Rafael), a fidelidade à vontade de Deus (Lei), a prática da esmola, o amor aos pais, a oração e o jejum, a integridade do matrimônio e o respeito pelos mortos. O autor mostra, sobretudo, que o homem justo não vive sozinho: está sempre acompanhado e protegido por Deus.

JUDITE

grande indiferença que este livro demonstra pela história e geografia indica que seu autor não pretende relatar fatos históricos concretos. Quer apenas compor uma história para encorajar o povo a resistir e lutar. A obra foi escrita na Palestina, provavelmente em meados do séc. II a.C., durante a resistência dos Macabeus ou logo após. O importante é que o livro apresenta a situação difícil do povo, ameaçado por uma grande potência. Por trás de Nabucodonosor e seu império, podemos entrever a figura de qualquer dominador com seu sistema de opressão.

Os três primeiros capítulos descrevem os mecanismos de dominação das grandes potências: aparato militar, demonstração de força, intimidação. Mostram também como os pequenos países, intimidados, se submetem a tais pressões. A prepotência se torna verdadeiro ídolo, que exige adoração. Nos capítulos 4 a 7, é apresentado um país pequeno que, dominado, se prepara para reagir, através de uma fé prática. Ao mesmo tempo, descreve a irritação do opressor, que não admite insubmissão e despreza o Deus libertador presente na história. O oprimido se vê tentado a fazer as pazes e a se conformar com a escravidão.

Nos capítulos 8 e 9, a figura de Judite sugere dois símbolos que se complementam: a mulher corajosa que sai em defesa de seu povo oprimido e o próprio povo que renova sua força e fé, liderado por gente que enfrenta a covardia das autoridades e sai à luta. Nos capítulos 10 a 13, a beleza e artimanhas de Judite simbolizam a fé, que não dispensa os meios políticos na luta para eliminar os mecanismos centrais de repressão (cabeça de Holofernes). Diante de uma primeira vitória, os outros (Aquior) se unem porque começam a ter fé no Deus que liberta. Por fim, a vitória comemorada reacende o ideal de liberdade e o prazer de louvar o Deus verdadeiro, que vence os ídolos opressores.

Diante da opressão, o povo de Deus pergunta: «O que devemos fazer? Refugiar-nos na fé, esperando que Deus resolva a situação? Ou entrar no jogo da história, combatendo os poderosos com as mesmas armas? Até que ponto Deus está presente na passividade ou na atividade histórica do seu povo?» Ponto por ponto, o livro de Judite responde: a fé autêntica é aquela que encarna a fidelidade a Deus e ao seu projeto dentro da situação histórica concreta em que o povo está vivendo. Deus estará sempre aliado com aqueles que lutam para conquistar a liberdade e a vida, procurando destruir toda e qualquer forma de escravidão e morte. Tal luta, porém, não deve realizar-se de forma temerária. É preciso agir com discernimento, para realizar ação verdadeiramente eficaz, coerente com a fé que leva para a vida.

ESTER

O livro de Ester não é uma narrativa histórica propriamente dita. É uma espécie de conto que analisa a situação da comunidade judaica espalhada entre as nações estrangeiras.

Existem duas versões: A hebraica data provavelmente de meados do séc. IV a.C. A outra versão, em grego e consideravelmente ampliada, surgiu em meados do séc. II a.C. A presente tradução se baseia no texto hebraico (em caracteres redondos), e é completada com trechos (em grifo) que só existem na versão grega.

A inspiração fundamental do livro é o fato do êxodo, aqui revisto em clima de resistência dos judeus na Palestina (cf. livros dos Macabeus) e no esforço de preservar a sobrevivência da comunidade judaica espalhada pelo mundo. A narração do êxodo exige transformações radicais de estrutura possíveis naquelas circunstâncias, enquanto o livro de Ester busca criar condições de sobrevivência e espaços no sistema vigente, já que as circunstâncias históricas não permitem transformações mais profundas. Neste livro, não se pensa em tomar, mas apenas influenciar o poder, desmascarando o abuso dos privilegiados, reformulando em favor do povo a legislação, e valorizando as celebrações populares.

Ester nos ajuda a pensar numa política que une transformações locais e nacionalistas a uma política global e mundial, na qual a luta pela justiça ganhe espaços e os oprimidos da terra recuperem a esperança de viver. É assim que se torna possível, pouco a pouco, uma sociedade alternativa, na qual reinem a justiça, a liberdade e a partilha.

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Fonte: Verbetes Introdutórios da Báblia Edição Pastoral, Paulus

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