Livros de Esdras e Neemias

ORGANIZAÇÃO DA COMUNIDADE

Introdução

Os livros de Esdras e Neemias continuam a história de Israel, relatando os acontecimentos entre 538 e 400 a.C. O tema central é a organização da comunidade, que se formou a partir da volta dos judeus exilados na Babilônia.

No início, tratava-se de um livro único, mais tarde separado em duas partes, denominadas 1° e 2° de Esdras. Depois, o segundo recebeu o nome de Neemias. Em conjunto, os vinte e três capítulos não se encontram na ordem cronológica e literária original. Em vista dessa dificuldade, é interessante ler todo o texto conforme a seguinte cronologia:

586: Exílio na Babilônia

539: Ciro, rei da Pérsia, conquista a Babilônia

538: Edito de Ciro, permitindo a repatriação dos exilados (2Cr 36; Esd 1)

537: Primeiro grupo de repatriados com Sasabassar; recomeça o culto (Esd 2-3)

536: Preparativos para a reconstrução do Templo; obstáculos internos e externos (Esd 4-5)

520: Atividade dos profetas Ageu e Zacarias

518: Obras do Templo interrompidas e retomadas (Esd 5-6)

515: Dedicação do Templo (Esd 6)

448: Uma colônia de judeus muda para Jerusalém (Esd 4,8-22)

445: Neemias vai para Jerusalém; construção da muralha (Ne 1-2). Neemias é nomeado governador (Ne 5,14)

433: Neemias volta para Susa (Ne 13). Atividade do profeta Malaquias

430: Neemias e Esdras em Jerusalém; leitura da lei; reformas (Ne 8-10; 13)

429: Artaxerxes autoriza Esdras a promulgar a Lei (Esd 7-8)

428: Reformas de Esdras (Esd 9-10).

423-404: Os samaritanos constroem um templo no monte Garizim.

Embora sua leitura implique dificuldades, os livros de Esdras e Neemias mostram como um grupo se reúne e se organiza para formar comunidade. Certamente, o grupo deverá enfrentar dificuldades econômicas para sobreviver, políticas para constituir o seu espaço e ideológicas para manter a própria identidade original. Na confluência dessas três dificuldades está a espinhosa questão da liderança, para que a comunidade não fique entregue ao arbítrio dos poderosos internos ou externos, mas tenha meios de resolver seus conflitos, defender seus direitos e abrir perspectivas para o futuro.

Os livros de ESDRAS e de NEEMIAS formavam um só “Livro de Esdras”, na Bíblia Hebraica e na versão grega dos Setenta. Como esta versão recolhia também o livro apócrifo grego de Esdras e lhe dava o primeiro lugar (1 Esdras), o livro de ESDRAS-NEEMIAS era denominado 2 ESDRAS. Na época cristã foi dividido em dois. A Vulgata latina adotou essa divisão em 1 Esdras (=ESDRAS) e 2 Esdras (=NEEMIAS), reservando ao apócrifo grego a designação de 3 Esdras. A designação dos dois livros a partir das respectivas personagens principais, Esdras e Neemias, é mais recente, mas foi assimilada mesmo nas edições impressas da Bíblia massorética.

AUTORIA E DATAÇÃO Não é dada qualquer indicação sobre o autor destes livros, mas admite-se ser um só: o mesmo chamado Cronista, que redigiu e compôs a vasta síntese histórica dos dois livros das Crônicas, seguidos de ESDRAS E NEEMIAS. Um dos indícios mais significativos é a identidade entre os últimos versículos de 2 Crônicas (36,22-23) e os primeiros versículos de ESDRAS (1,1-3), o que sugere a continuidade da narrativa. Pode, assim, situar-se esta obra nos finais do séc. IV ou início do séc. III a.C..

QUESTÃO CRONOLÓGICA Discute-se qual dos dois deverá ser colocado em primeiro lugar. Muitos preferem a sucessão NEEMIAS-ESDRAS; mas ainda não se encontrou uma solução satisfatória para estabelecer a cronologia dos acontecimentos em questão. O texto fala da chegada de Esdras a Jerusalém, no sétimo ano do rei Artaxerxes (Esd 7,7) e indica a sua atividade reformadora (Esd 8-10); depois, vem Neemias, no vigésimo ano de Artaxerxes (Ne 2,1) e a sua preocupação pela reconstrução das muralhas (Ne 1-7); surge outra vez Esdras, para a leitura solene da Lei (Ne 8-9); e, finalmente, Neemias, por ocasião de uma segunda estadia em Jerusalém, no ano 32.° de Artaxerxes (Ne 13,6-7).

Teriam estado estes dois homens ao mesmo tempo em Jerusalém, a trabalhar independentemente? A resposta mais aceitável é a seguinte: a atividade de Neemias seria toda ela anterior a Esdras (Ne 1-7 e 10-13, onde aparece como construtor e reformador); mais tarde, talvez no ano 7.° de Artaxerxes II (e não Artaxerxes I), por volta de 398-397 a.C., veio Esdras a Jerusalém: empreendeu reformas (Esd 7-10), restaurou o culto e fez a solene leitura pública da Lei (Ne 8-9). Ao aplicar a sua perspectiva teológica a este emaranhado de dados, o redator final é que terá desorganizado a cronologia real dos acontecimentos.

No entanto, não se pode negar ou diminuir o valor histórico das informações veiculadas por estes livros. Concordam perfeitamente com os dados das fontes bíblicas e profanas, como, por exemplo, os papiros das ilhas Elefantinas (Egito).

DOCUMENTAÇÃO UTILIZADA Na composição destes dois livros, o Cronista utilizou como fontes diversos documentos antigos (entre eles, as memórias pessoais das duas personagens em questão), que ele reproduziu e organizou, relacionando-os uns com os outros, segundo a sua visão teológica, de forma a obter um conjunto harmonioso. Assim, podem encontrar-se:

a) documentos oficiais em hebraico (listas, estatísticas, como as de Esd 2 e Ne 7,6-68; 10,3-30; 11,3-36; 12,1-26) e em aramaico (correspondência diplomática, decretos oficiais: Esd 4,6-6,18; 7,12-26;

b) memórias de Esdras (Esd 7-10), com partes redigidas na primeira pessoa (Esd 7,27-9,15) e outras na terceira: Esd 7,1-10; 10; Ne 8-9;

c) memórias de Neemias: Ne 1-7; 10; 12,27-13,31.

DIVISÕES E CONTEÚDO
O livro de ESDRAS divide-se em duas grandes partes:
I. Regresso do Exílio e reconstrução do templo: 1,1-6,22;
II. Organização da comunidade: 7,1-10,44.

O livro de NEEMIAS consta também de duas partes:
I. Reconstrução das muralhas de Jerusalém: 1,1-7,72;
II. Proclamação da Lei e Reformas: 8,1-13,31.

Estas duas partes andam à volta de certos temas dominantes, que se apresentam por esta ordem:
1. Neemias passa da corte persa para governador de Jerusalém: 1-2;
2. Construção das muralhas, apesar de inúmeras dificuldades: 3-6;
3. Recenseamento do povo, celebração da Lei e renovação da aliança: 7-10;
4. Repovoamento de Jerusalém e das terras da Judéia: 11;
5. Medidas para garantir o culto e a pureza dos costumes: 12-13.

PERSPECTIVA TEOLÓGICA ESDRAS e NEEMIAS narram acontecimentos ocorridos logo após o édito de Ciro (538 a.C.), que permitia o regresso do cativeiro da Babilônia. Mostrando a situação difícil dos repatriados, fazem sobressair o esforço pela restauração do povo, no aspecto material e religioso.

Contêm uma admirável mensagem doutrinal, centrada em três preocupações fundamentais: o templo, a cidade de Jerusalém e a comunidade do povo de Deus.

Após as provas do Exílio, com as suas más conseqüências no aspecto religioso, o povo organiza-se numa grande unidade nacional e religiosa.

Meditando na Lei, compreende como o castigo lhe foi mandado por Deus, devido à sua infidelidade, e como, apesar de tudo, a misericórdia divina se mantém para com o resto de Israel, detentor das grandes promessas em relação ao Messias. A Palavra de Deus é, assim, a base da reconstrução do povo que volta do Exílio.

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Fonte: Verbetes Introdutórios da Bíblia Ed. Pastoral, Paulus.

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