Uma Igreja de medalhinhas

Por|  Hermes Abreu, ofm

Ontem à noite, hospedado em uma casa de formação, partilhávamos alimento e simpatia. Conversávamos: dois padres, alguns seminaristas, minha família que viajava comigo.

Os assuntos transitaram desde futebol à política, chegando – por fim – aos problemas sociais que enfrentamos. O tema central era o grande crescimento da população em situação de rua e quais medidas devem ser adotadas pela Igreja. Falamos de Padre Júlio Lancelotti e seu exemplo de vida.

Como pessoa de boa memória, lembrei a implosão do número de padres e religiosos comprometidos com os pobres. Do quanto este número decaiu desde a década de 1990. Estando rodeado de seminaristas, pensei ser oportuna a lembrança, deixando implícita a exortação de se cultivar uma vocação com real compromisso com os excluídos.

Para meu estarrecimento, um seminarista de terceiro ano de teologia, atribuiu a escassez dos padres comprometidos à condenação justa da Teologia da Libertação e a excomunhão de Leonardo Boff. Com palavras irônicas ele comemorava o fim da supracitada teologia e a excomunhão de Boff.

Primeiramente, penso que seu comportamento, além de indelicado, é fruto de falta de informação e, mesmo, cultura. Primeiro porque Boff nunca foi excomungado. Sofreu algumas advertências, mas excomunhão, não. Segundo, não houve uma condenação à Teologia da Libertação. O que temos são orientações sobre possíveis erros. Outrossim, há – também – muitas considerações elogiosas da mesma.

Mais triste do que ver uma opinião hermeticamente formada de um seminarista, foi perceber como alguém – preparando-se para o sacerdócio – está tão predisposto a condenar, excluir.

Questionei onde ele tinha a informação do decreto pontifício – no qual – Leonardo Boff era, a partir daquela data, excomungado. Ele me disse que na Canção Nova se tratou deste tema por diversas vezes. Daí, fui mais longe: inquiri a ele se a Canção Nova era um veículo oficial da Casa Pontifícia. Ele, pasmem, respondeu: não é? Neste momento, abandonei o debate.

Após receber um pedido de desculpas do reitor do seminário, em razão da indelicadeza de seu formando, me retirei. A reflexão permaneceu latente em mim. Para onde caminha a Igreja? Orientada, presidida, liderada por pessoas mal informadas, intolerantes, intransigentes. Propensas à condenação, ao ostracismo.

Lamentável saber que, em grande parte, serão estes jovens que estarão nos presbitérios. Pessoas alienadas, com discurso fundamentado em uma teologia meramente devocional. Uma Igreja de Novenas e Medalhinhas.

Enquanto isso – nas ruas – há fome, violência, morte.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: